Quando o corpo não relaxa: o estado de alerta como linguagem emocional
- Herson Alex

- há 5 dias
- 5 min de leitura
Corpo em alerta: quando o descanso não basta
Há pessoas que conseguem parar, mas não conseguem descansar. Sentam-se no sofá, deitam-se na cama, tiram férias e ainda assim o corpo permanece tenso. Os ombros não cedem, a respiração não se aprofunda, o sono é leve, fragmentado. Mesmo quando “está tudo bem”, algo no corpo insiste em não acreditar.

Esse estado não costuma ser vivido como um sintoma claro. Ele aparece de forma difusa: uma sensação de prontidão constante, um corpo que parece sempre “de plantão”, como se algo pudesse acontecer a qualquer momento. Não há, necessariamente, medo consciente. Não há ameaça objetiva. Mas há alerta.
Na clínica, esse corpo aparece com frequência. E quase sempre acompanhado da mesma pergunta silenciosa: “Por que eu não consigo relaxar?”
Responder a essa pergunta exige sair da lógica do defeito individual e aprender a escutar o corpo como linguagem emocional e histórica, não como falha.
O corpo aprende antes da mente

A neurociência contemporânea já demonstrou aquilo que a clínica observa há décadas: o corpo reage antes que a consciência compreenda. Antonio Damasio, ao formular o conceito de marcadores somáticos, mostrou que decisões, percepções e avaliações emocionais são mediadas por estados corporais que antecedem o pensamento racional.
O corpo não espera a razão autorizar a reação. Ele antecipa. Ele registra padrões, aprende contextos, reconhece riscos sutis. Muitas vezes, quando algo em nossa mente diz “não há motivo”, o corpo responde: “já estive aqui antes”.
Essa anterioridade corporal não é patológica em si. Ela é, na verdade, um recurso adaptativo da seleção natural. O problema surge quando o estado de alerta deixa de ser episódico e se torna modo de funcionamento.
Alerta não é ansiedade: é adaptação prolongada
Na cultura contemporânea, estados de alerta são rapidamente nomeados como ansiedade. Essa nomeação, embora às vezes necessária, pode empobrecer a compreensão do fenômeno.
Do ponto de vista clínico e psicossomático, é importante diferenciar:
Ansiedade como diagnóstico de
Alerta como estado corporal adaptativo
Peter Levine, criador da abordagem Somatic Experiencing, descreve o trauma não como o evento em si, mas como a impossibilidade do sistema nervoso de retornar ao repouso após uma ameaça. O corpo permanece em vigilância porque aprendeu que relaxar pode ser perigoso.
Esse aprendizado nem sempre está ligado a grandes traumas. Muitas vezes, ele nasce de contextos sutis e repetidos:
Ambientes imprevisíveis
Relações instáveis
Exigência constante de adaptação
Falta de segurança emocional
O corpo, então, se organiza para não baixar a guarda.
O estado de alerta como memória viva
A psicanálise há muito reconhece que o corpo é depositário daquilo que não pôde ser simbolizado. Freud já apontava que o sintoma surge quando algo não encontra palavras. Wilhelm Reich aprofundou essa ideia ao descrever a couraça muscular: tensões corporais crônicas como registros de conflitos emocionais não elaborados.
Mais recentemente, autores como Bessel van der Kolk reforçaram essa compreensão ao afirmar que “o corpo mantém a contagem”. O alerta persistente não é um erro; é uma memória viva, não narrativa, que continua operando no presente.
O corpo não relaxa porque, em algum nível, ele aprendeu que relaxar não era seguro.
A sociedade do desempenho e o corpo em prontidão
Byung-Chul Han oferece uma leitura fundamental para compreender por que tantos corpos vivem em alerta hoje. Na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, o controle deixa de ser externo e passa a ser internalizado.
Não somos mais pressionados apenas por ordens explícitas, mas por exigências invisíveis:
Estar disponível
Ser produtivo
Responder rápido
Dar conta
O corpo, nesse contexto, não encontra pausas reais. Mesmo o descanso é atravessado por notificações, expectativas e autoexigência. Han descreve esse cenário como produtor de cansaço profundo e adoecimento psíquico, mas antes do colapso vem o alerta.
O corpo permanece acordado porque a vida exige vigilância constante. Saímos da savana, mas vivemos como se ela estivesse ainda mais perigosa.
Quando o corpo não confia, mesmo que a mente queira

Muitas pessoas relatam um conflito interno: racionalmente sabem que estão seguras, mas corporalmente não sentem isso. Essa dissociação entre mente e corpo não é falha de autocontrole; é sinal de que a confiança é uma experiência corporal, não apenas cognitiva.
A antropologia e a psicologia do desenvolvimento mostram que a sensação de segurança se constrói no vínculo. John Bowlby, ao formular a teoria do apego, já indicava que a previsibilidade do outro é fundamental para a regulação emocional.
Quando essa previsibilidade falha, seja na infância, seja na vida adulta, o corpo aprende a não relaxar completamente.
O custo silencioso do alerta permanente
Viver em estado de alerta contínuo tem efeitos cumulativos:
Cansaço que não melhora com descanso
Irritabilidade
Dificuldade de concentração
Sensação de esgotamento sem causa clara
Do ponto de vista fisiológico, o sistema nervoso simpático permanece ativado. Do ponto de vista psíquico, o sujeito vive em constante antecipação.
O alerta prolongado não é sustentável. Ele cobra seu preço, não de forma dramática, mas silenciosa.
O perigo de tratar o alerta como falha

A cultura contemporânea tende a medicalizar rapidamente esses estados. Café para aguentar, remédio para silenciar, distração para anestesiar. Byung-Chul Han chama esse movimento de sociedade paliativa: uma sociedade que elimina o desconforto sem escutá-lo.
Quando o alerta é tratado apenas como problema a ser eliminado, perde-se a oportunidade de escuta. O corpo deixa de ser guia e passa a ser inimigo.
Clinicamente, isso é um risco. Porque aquilo que não é ouvido tende a retornar com mais força.
Dar palavras ao corpo: o trabalho clínico
A psicoterapia oferece um espaço raro na cultura atual: um lugar onde o corpo pode ser escutado sem pressa de correção. Dar palavras ao corpo não significa intelectualizar a experiência, mas construir sentido para aquilo que foi vivido sem linguagem.
Na clínica, o estado de alerta começa a ceder quando:
O corpo é reconhecido
A experiência é validada
A história é lentamente nomeada
O relaxamento não se impõe. Ele emerge quando o corpo sente que não precisa mais vigiar sozinho.
Respeitar o ritmo do corpo
Talvez a pergunta não seja “como fazer o corpo relaxar”, mas “o que o corpo está tentando proteger e sinaliza?”.
O estado de alerta não é inimigo. Ele é um sinal de inteligência adaptativa. Respeitar seus limites, escutar sua história e permitir que ele encontre novas experiências de segurança é um gesto profundo de cuidado.
Em uma cultura que exige prontidão constante, aprender a escutar o corpo é um ato quase subversivo.
E, muitas vezes, é o início de um descanso possível.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.
Fontes:
BOWLBY, John. Apego: a natureza do vínculo. Tradução de Álvaro Cabral. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002
DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma: as memórias que o corpo retém. São Paulo: Summus, 1999.
REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda a conta: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Tradução de Carlos Szlak. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.







Comentários