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Quando o corpo não relaxa: o estado de alerta como linguagem emocional


Corpo em alerta: quando o descanso não basta


Há pessoas que conseguem parar, mas não conseguem descansar. Sentam-se no sofá, deitam-se na cama, tiram férias e ainda assim o corpo permanece tenso. Os ombros não cedem, a respiração não se aprofunda, o sono é leve, fragmentado. Mesmo quando “está tudo bem”, algo no corpo insiste em não acreditar.


mulher deitada em uma sala acolchoada branca
Fonte Unsplash

Esse estado não costuma ser vivido como um sintoma claro. Ele aparece de forma difusa: uma sensação de prontidão constante, um corpo que parece sempre “de plantão”, como se algo pudesse acontecer a qualquer momento. Não há, necessariamente, medo consciente. Não há ameaça objetiva. Mas há alerta.


Na clínica, esse corpo aparece com frequência. E quase sempre acompanhado da mesma pergunta silenciosa: “Por que eu não consigo relaxar?”


Responder a essa pergunta exige sair da lógica do defeito individual e aprender a escutar o corpo como linguagem emocional e histórica, não como falha.


O corpo aprende antes da mente


corpo em pose artítisca
Fonte Unsplash

A neurociência contemporânea já demonstrou aquilo que a clínica observa há décadas: o corpo reage antes que a consciência compreenda. Antonio Damasio, ao formular o conceito de marcadores somáticos, mostrou que decisões, percepções e avaliações emocionais são mediadas por estados corporais que antecedem o pensamento racional.

O corpo não espera a razão autorizar a reação. Ele antecipa. Ele registra padrões, aprende contextos, reconhece riscos sutis. Muitas vezes, quando algo em nossa mente diz “não há motivo”, o corpo responde: “já estive aqui antes”.


Essa anterioridade corporal não é patológica em si. Ela é, na verdade, um recurso adaptativo da seleção natural. O problema surge quando o estado de alerta deixa de ser episódico e se torna modo de funcionamento.


Alerta não é ansiedade: é adaptação prolongada


Na cultura contemporânea, estados de alerta são rapidamente nomeados como ansiedade. Essa nomeação, embora às vezes necessária, pode empobrecer a compreensão do fenômeno.


Do ponto de vista clínico e psicossomático, é importante diferenciar:

  • Ansiedade como diagnóstico de

  • Alerta como estado corporal adaptativo


Peter Levine, criador da abordagem Somatic Experiencing, descreve o trauma não como o evento em si, mas como a impossibilidade do sistema nervoso de retornar ao repouso após uma ameaça. O corpo permanece em vigilância porque aprendeu que relaxar pode ser perigoso.

Esse aprendizado nem sempre está ligado a grandes traumas. Muitas vezes, ele nasce de contextos sutis e repetidos:

  • Ambientes imprevisíveis

  • Relações instáveis

  • Exigência constante de adaptação

  • Falta de segurança emocional


O corpo, então, se organiza para não baixar a guarda.


O estado de alerta como memória viva


A psicanálise há muito reconhece que o corpo é depositário daquilo que não pôde ser simbolizado. Freud já apontava que o sintoma surge quando algo não encontra palavras. Wilhelm Reich aprofundou essa ideia ao descrever a couraça muscular: tensões corporais crônicas como registros de conflitos emocionais não elaborados.


Mais recentemente, autores como Bessel van der Kolk reforçaram essa compreensão ao afirmar que “o corpo mantém a contagem”. O alerta persistente não é um erro; é uma memória viva, não narrativa, que continua operando no presente.


O corpo não relaxa porque, em algum nível, ele aprendeu que relaxar não era seguro.


A sociedade do desempenho e o corpo em prontidão


Byung-Chul Han oferece uma leitura fundamental para compreender por que tantos corpos vivem em alerta hoje. Na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, o controle deixa de ser externo e passa a ser internalizado.


Não somos mais pressionados apenas por ordens explícitas, mas por exigências invisíveis:

  • Estar disponível

  • Ser produtivo

  • Responder rápido

  • Dar conta


O corpo, nesse contexto, não encontra pausas reais. Mesmo o descanso é atravessado por notificações, expectativas e autoexigência. Han descreve esse cenário como produtor de cansaço profundo e adoecimento psíquico, mas antes do colapso vem o alerta.


O corpo permanece acordado porque a vida exige vigilância constante. Saímos da savana, mas vivemos como se ela estivesse ainda mais perigosa.


Quando o corpo não confia, mesmo que a mente queira


cerebro e sistema nervoso humano
Fonte Unsplash

Muitas pessoas relatam um conflito interno: racionalmente sabem que estão seguras, mas corporalmente não sentem isso. Essa dissociação entre mente e corpo não é falha de autocontrole; é sinal de que a confiança é uma experiência corporal, não apenas cognitiva.

A antropologia e a psicologia do desenvolvimento mostram que a sensação de segurança se constrói no vínculo. John Bowlby, ao formular a teoria do apego, já indicava que a previsibilidade do outro é fundamental para a regulação emocional.


Quando essa previsibilidade falha, seja na infância, seja na vida adulta, o corpo aprende a não relaxar completamente.


O custo silencioso do alerta permanente


Viver em estado de alerta contínuo tem efeitos cumulativos:

  • Cansaço que não melhora com descanso

  • Irritabilidade

  • Dificuldade de concentração

  • Sensação de esgotamento sem causa clara

Do ponto de vista fisiológico, o sistema nervoso simpático permanece ativado. Do ponto de vista psíquico, o sujeito vive em constante antecipação.


O alerta prolongado não é sustentável. Ele cobra seu preço, não de forma dramática, mas silenciosa.


O perigo de tratar o alerta como falha


homem sentado pensando
Fonte Unsplash

A cultura contemporânea tende a medicalizar rapidamente esses estados. Café para aguentar, remédio para silenciar, distração para anestesiar. Byung-Chul Han chama esse movimento de sociedade paliativa: uma sociedade que elimina o desconforto sem escutá-lo.

Quando o alerta é tratado apenas como problema a ser eliminado, perde-se a oportunidade de escuta. O corpo deixa de ser guia e passa a ser inimigo.


Clinicamente, isso é um risco. Porque aquilo que não é ouvido tende a retornar com mais força.


Dar palavras ao corpo: o trabalho clínico


A psicoterapia oferece um espaço raro na cultura atual: um lugar onde o corpo pode ser escutado sem pressa de correção. Dar palavras ao corpo não significa intelectualizar a experiência, mas construir sentido para aquilo que foi vivido sem linguagem.

Na clínica, o estado de alerta começa a ceder quando:

  • O corpo é reconhecido

  • A experiência é validada

  • A história é lentamente nomeada


O relaxamento não se impõe. Ele emerge quando o corpo sente que não precisa mais vigiar sozinho.


Respeitar o ritmo do corpo


Talvez a pergunta não seja “como fazer o corpo relaxar”, mas “o que o corpo está tentando proteger e sinaliza?”.


O estado de alerta não é inimigo. Ele é um sinal de inteligência adaptativa. Respeitar seus limites, escutar sua história e permitir que ele encontre novas experiências de segurança é um gesto profundo de cuidado.


Em uma cultura que exige prontidão constante, aprender a escutar o corpo é um ato quase subversivo.

E, muitas vezes, é o início de um descanso possível.




Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes:

BOWLBY, John. Apego: a natureza do vínculo. Tradução de Álvaro Cabral. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002

DAMÁSIO, António R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.

LEVINE, Peter A. O despertar do tigre: curando o trauma: as memórias que o corpo retém. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, Wilhelm. Análise do caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

VAN DER KOLK, Bessel. O corpo guarda a conta: cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Tradução de Carlos Szlak. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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