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Byung-Chul Han e a Sociedade Paliativa: por que evitar a dor nos adoece?

Quando o mundo se torna analgésico


Vivemos em uma época marcada pela promessa de que a vida deve ser leve, fluida, positiva e, sobretudo, indolor. A sociedade contemporânea se constitui como uma grande máquina analgésica, orientada por discursos de performance, felicidade praticamente obrigatória e consumo de experiências rápidas e confortáveis. É nesse cenário que Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha, introduz o conceito de “sociedade paliativa”, título da obra que serve de ponto de partida para este texto.


Byung-Chul Han filósofo

Han define a sociedade paliativa como um regime cultural que tenta eliminar qualquer forma de dor, não apenas a dor física, mas também a dor psíquica, simbólica, existencial e coletiva. Nesse processo, o sofrimento é transformado em disfunção, em ruído, em algo a ser medicalizado, eliminado ou ignorado. A dor perde sua dimensão de experiência humana constitutiva e passa a ser tratada como defeito técnico.


Neste texto, busco pensar esse fenômeno a partir de um diálogo entre filosofia, psicologia, sociologia e psicanálise, aproximando Han de autores como Nietzsche, Freud, Durkheim, Illich, Sennett e outros que, direta ou indiretamente, também refletiram sobre a condição humana diante da dor.


O objetivo não é apenas apresentar a tese de Han, mas conversar com ele e compreender o que perdemos quando abolimos o sofrimento e como essa anestesia social impacta a saúde mental, as relações e a nossa própria humanidade.


A dor como elemento estruturante da vida humana


homem preocupado e triste com o mar ao fundo

A tentativa contemporânea de erradicar o sofrimento parte de uma premissa equivocada: a de que a dor é sempre uma falha. Mas, historicamente, a dor teve função estruturante na construção de sentido. Nietzsche, em “A Gaia Ciência”, afirma que toda criação passa pela dor, e que a existência sem sofrimento seria uma existência plana, sem profundidade.


A dor, para muitos autores, é o que nos obriga a pensar, a transformar e a atribuir valor às coisas. Durkheim, ao estudar os rituais coletivos, mostrava que o sofrimento compartilhado é um dos elementos que cria coesão social. Freud, por sua vez, em “O Mal-Estar na Civilização”, reconhecia que o sofrimento é inevitável e que qualquer promessa de sua eliminação total é infantil e ilusória.


Han, alinhado a essa tradição, retoma a ideia de que a dor não é apenas um obstáculo, mas também algo constitutivo do próprio Eu. Na sociedade paliativa, no entanto, a dor é desinvestida de sentido. Não se trata mais de transformá-la, mas de suprimi-la. A consequência disso é uma vida superficial, incapaz de lidar com fraturas reais.


Da sociedade disciplinar à sociedade paliativa: do “não” ao “pode tudo”


Han, citando Foucault, observa que passamos de uma sociedade disciplinar, baseada em proibições, controle e normas, para uma sociedade do desempenho, na qual impera o “pode tudo”, desde que seja produtivo, motivador, positivo e eficiente.


mulher cansada e triste sentada a frente de um notebook e um celular

A sociedade paliativa é uma versão avançada desse modelo, ela busca:


  • evitar conflitos

  • evitar limites

  • evitar silêncio

  • evitar pausas

  • evitar vulnerabilidade

  • evitar qualquer forma de negatividade


A busca incessante por positividade gera um paradoxo: quanto mais evitamos a dor, mais frágeis nos tornamos. Isso pode estar por trás, como mais um elemento, no aumento das taxas de ansiedade, depressão e burnout. A hiperexposição a uma positividade tóxica, que Han chama de “terror do bem-estar”, fragmenta o sujeito.


Esse cenário se relaciona diretamente com a psicologia contemporânea: pacientes chegam cada vez mais incapazes de tolerar frustrações mínimas, interpretando qualquer incômodo como falha pessoal. A sociedade paliativa produz um sujeito que não sabe sofrer e, portanto, não sabe se reconstruir.


A medicalização do sofrimento e a perda da linguagem da dor


rosto de mulher coberta de pílulas de remédio

Aqui Han se aproxima de Ivan Illich, especialmente da obra “A Expropriação da Saúde”, quando critica a medicalização crescente da vida. Na sociedade paliativa, dores que outrora eram compreendidas simbolicamente, como rupturas amorosas, luto, fracasso, dúvidas existenciais, agora são rapidamente tratadas como distúrbios bioquímicos.


Isso não significa negar a importância da psiquiatria e dos psicofármacos, mas reconhecer que a medicalização da dor impede que o sujeito elabore sentido. Dor que poderia se tornar narrativa vira ruído químico.


Perdemos, como diz Han, “a linguagem da dor”. E perder a linguagem da dor é perder a capacidade de nos entender e nos comunicar.


A economia da atenção e a fuga permanente de si mesmo


Na sociedade paliativa, a dor é incompatível com a hiperconectividade. Sentir dói; e quem sente demais desacelera, algo insuportável ao ritmo das redes, que exigem presença constante e atualização infinita.


muitas pessoas juntas olhando o celular sem interagir

Han afirma que a dor exige atenção profunda, mas vivemos num regime de atenção dispersa. Em “Sociedade do Cansaço”, ele já havia mostrado que a hiperatividade e o excesso de estímulos impedem a contemplação. Agora, em "Sociedade Paliativa", acrescenta: impedem também a cura.


  • Sentir dor demanda silêncio.

  • Mas o silêncio desapareceu.

  • E sem silêncio, o sofrimento se torna crônico.


Richard Sennett, em “A Corrosão do Caráter”, mostra como a vida flexível e acelerada gera identidades frágeis, incapazes de construir narrativas longas. A ausência de estabilidade narrativa agrava a sensação de vazio, e o vazio, por sua vez, amplifica a dor não simbolizada.


O corpo anestesiado: depressão, ansiedade e burnouts invisíveis


A sociedade paliativa produz um sujeito que precisa performar felicidade. A tristeza vira fracasso; o cansaço vira incompetência; o luto vira problema que precisa ser “resolvido”.


homem triste com fundo escuro foto em preto e branco

Essa cultura leva ao colapso subjetivo. A dor reprimida não desaparece, apenas se desloca. Na psicologia clínica, isso pode se manifesta em:


  • estados depressivos sem causa aparente

  • ansiedade generalizada

  • ataques de pânico

  • sensação de “não sentir nada”

  • exaustão por excesso de positividade

  • hiperexigência emocional


O sujeito não consegue pedir ajuda porque a sociedade lhe ensinou que sofrer é inadequado. Freud já advertia: negar a dor é a pior forma de lidar com ela. A pulsão retorna, e retorna intensificada.


O sofrimento como experiência de verdade


mulher sentada triste olhando para o lado

Han recupera um ponto central da tradição filosófica ao falar que a dor revela o real, pois é na dor que percebemos limites, desejos, perdas, e também aquilo que realmente importa. A dor é ontológica, ou seja, ela diz algo sobre nós, quem somos, de onde viemos.


A sociedade paliativa, ao neutralizar o sofrimento, neutraliza também a experiência de verdade.

  • Não conhecemos mais nossos limites, porque não ousamos tocá-los.

  • Não conhecemos mais nosso próprio corpo, porque o tratamos como máquina de produção.

  • Não enfrentamos mais o outro, porque evitamos qualquer conflito.


Perde-se, portanto, a possibilidade de crescimento emocional.


Como recuperar a dignidade da dor?


A crítica de Han não é um convite ao culto do sofrimento. Ele não é niilista; é restaurador. Ele busca resgatar a dimensão formativa da dor, ou seja, aquilo que produz profundidade, narrativa e humanidade.

Recuperar a dignidade da dor exige:


  • Reduzir a hiperpositividade performática (ter que parecer sempre estar bem)

  • Reabilitar o conflito como parte da vida

  • Permitir experiências lentas e contemplativas

  • Reintroduzir silêncio e interioridade

  • Abrir espaço para narrativas de fragilidade

  • Acolher a vulnerabilidade não como falha, mas como condição humana


E aqui a psicologia encontra campo fértil, pois o processo terapêutico é justamente a reintrodução do direito ao sofrimento, como meio de elaboração e transformação.


Quando anestesiamos a dor, anestesiamos a vida


A sociedade paliativa produz sujeitos anestesiados: incapazes de lidar consigo, com o outro e com o tempo. Ao tentar eliminar a dor, eliminamos também profundidade, vínculos e sentido.


Han nos lembra que sofrer não é falha, é forma de estar no mundo.


  • A dor nos obriga a desacelerar.

  • Nos convida à introspecção.

  • Nos revela o que precisamos transformar.

  • Nos conecta com aquilo que é verdadeiramente nosso.


Em uma cultura que transforma sofrimento em distúrbio e silêncio em ameaça, recuperar nossa capacidade de sofrer talvez seja um dos gestos mais humanos, e mais revolucionários, do presente.




Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes:

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 21.

FREUD, Sigmund; BREUER, Josef. Estudos sobre a histeria (Studien über Hysterie). In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 2.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

HAN, Byung-Chul. Sociedade Paliativa: dor de hoje. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2024.

ILLICH, Ivan. A expropriação da saúde: Nêmesis da medicina. Tradução de J. C. Monteiro e José Paulo Paes. São Paulo: Expressão Popular, 2016.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência (la gaya scienza). Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Tradução de Marcos Santarrita. 16. ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.



 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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