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A Exaustão da Mente: A Sociedade do Cansaço sob a Ótica da Neurociência e da Psicanálise

Uma das maiores queixas que escuto na clínica é também uma das maiores no contemporâneo. E ela raramente se manifesta como um conflito "histérico" ou uma repressão moral clássica. O sofrimento atual apresenta-se sob a forma de um esgotamento sem nome, uma fadiga que não cede ao repouso biológico.


Byung-Chul Han
Byung-Chul Han

Muitos pacientes descrevem uma sensação de insuficiência perpétua, como se estivessem permanentemente em débito com um tribunal invisível. Esse fenômeno não constitui uma falha de resiliência individual; é a resposta patológica de um psiquismo imerso na Sociedade do Cansaço.


O problema central reside na transição da dinâmica social de controle. Se a modernidade industrial operava sob a égide da proibição e do dever, a contemporaneidade baseia-se no imperativo da positividade e do desempenho ilimitado. O sujeito atual não é mais coagido por uma autoridade externa; ele converteu-se no autoexplorador de sua própria força de trabalho. E para compreender essa mutação do sofrimento, parece fundamental cruzar a topologia do sujeito do desempenho com os marcadores neurobiológicos do estresse crônico e a economia libidinal da psicanálise.


O Imperativo do Desempenho e a Violência da Positividade


O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han postula que passamos da sociedade disciplinar descrita por Michel Foucault para a sociedade do desempenho. Na estrutura disciplinar, o sujeito era movido pela negatividade do dever ("você deve"); agora, na sociedade do desempenho, a força motriz é a positividade do poder ("você pode"). Essa aparente emancipação oculta um mecanismo perverso: a autocoação.


Byung-Chul Han
Byung-Chul Han

O sujeito do desempenho, ao acreditar-se livre de amarras externas, entrega-se voluntariamente a uma busca neurótica por otimização. A autoexplorização é psiquicamente mais eficiente do que a exploração alheia, pois vem acompanhada do sentimento de autorrealização. Contudo, quando o "poder" se torna ilimitado, o fracasso deixa de ser uma contingência do sistema e passa a ser internalizado como uma falência moral e pessoal.


A depressão e o burnout, sob essa ótica, não são meras disfunções neuroquímicas isoladas, mas as cicatrizes de um choque do Eu consigo mesmo. O indivíduo, exaurido pela exigência de ser soberano e produtivo em tempo integral, colapsa diante da impossibilidade de sustentar sua própria imagem idealizada.


O Corpo na Sociedade do Cansaço


Essa pressão existencial traduz-se em alterações neurobiológicas severas. O organismo humano não foi evolutivamente projetado para manter estados de alerta contínuos sem períodos equivalentes de recuperação. Quando o sujeito do desempenho se submete à vigilância digital e à competição mercadológica ininterruptas, o cérebro interpreta o ambiente como uma zona de ameaça perene.


Byung-Chul Han
Byung-Chul Han

Esse estado de hipervigilância desencadeia a ativação crônica do Eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal). O hipotálamo secreta o hormônio liberador de corticotrofina (CRH), induzindo a liberação de ACTH pela hipófise, o que culmina na secreção sustentada de glicocorticoides (principalmente o cortisol, pelas glândulas adrenais).


Em condições agudas, o cortisol é adaptativo (homeostase). Contudo, a exposição prolongada resulta no que Bruce McEwen define como carga alostática: o custo cumulativo do estresse crônico sobre os sistemas fisiológicos.


A neurociência demonstra que níveis elevados de cortisol circulante promovem a atrofia dendrítica no hipocampo (prejudicando a consolidação da memória e a plasticidade sináptica) e hipertrofiam a amígdala, intensificando as respostas de medo e ansiedade. O esgotamento do burnout representa o ponto de inflexão biológica onde o sistema alostático falha em se autorregular, culminando no colapso metabólico e psíquico do organismo.


A Perda da Capacidade de Socializar


O sofrimento da sociedade do cansaço também se manifesta no isolamento e na quebra dos laços sociais. A Teoria Polivagal, formulada por Stephen Porges, oferece um modelo neurofisiológico essencial para compreender como a aceleração social destrói a alteridade. Porges mapeia o sistema nervoso autônomo em três vias filogenéticas, destacando o complexo vagal ventral (o "vago inteligente").


Byung-Chul Han
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Este sistema polivagal ventral é responsável pelo sistema de engajamento social, regulando os músculos da mímica facial, a audição na frequência da voz humana e a variabilidade cardíaca. Ele só se ativa quando o organismo capta sinais ambientais de segurança.


Quando a cultura impõe um ritmo de aceleração constante (como analisa o sociólogo Hartmut Rosa), o indivíduo é empurrado para o circuito vagal dorsal (resposta de congelamento, dissociação e depressão) ou para o sistema nervoso simpático (luta ou fuga). Em um estado de competição crônica, o outro deixa de ser um fator de corregulação do sistema nervoso e passa a ser processado pela neurocepção como um rival ou um estímulo ansiogênico. Sem ressonância e sem segurança biológica, o psiquismo adoece por desnutrição afetiva.


Narcisismo e Falso Self Digital


Pelo prisma da psicanálise, a sociedade do desempenho altera drasticamente a economia do desejo. Donald Winnicott introduziu o conceito de Falso Self para descrever uma estrutura defensiva na qual o indivíduo abdica de sua espontaneidade autêntica para se moldar às expectativas ambientais, protegendo um True Self (Self Verdadeiro) fragilizado.


Byung-Chul Han
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Na era da hipervisibilidade e da mercantilização da subjetividade pelas plataformas digitais, o Falso Self foi institucionalizado. O sujeito contemporâneo é instado a gerenciar sua própria imagem como uma marca (personal branding). O investimento pulsional é direcionado quase que exclusivamente para o ego idealizado nas telas, alimentando um narcisismo altamente vulnerável.


Jacques Lacan aponta que o desejo humano é o desejo do Outro. No entanto, o "Outro" digital é mediado por algoritmos desenhados para capitalizar sobre a inadequação e a falta. O sujeito busca incessantemente o significante da aprovação (o like, a visualização) para suturar sua divisão psíquica. Como essa validação é efêmera e quantificável, a busca torna-se aditiva e compulsória. O esgotamento surge quando o sujeito percebe a distância intransponível entre a miséria de sua experiência concreta e a perfeição da performance exigida pelo ecossistema digital.


O Papel da Psicoterapia


A Sociedade do Cansaço impõe à psicologia clínica um desafio ético fundamental. O consultório não pode atuar como uma extensão da lógica do desempenho, oferecendo paliativos ou técnicas de mindfulness cujo objetivo latente seja reinserir o indivíduo na engrenagem produtiva o mais rápido possível. A psicoterapia deve consolidar-se como um espaço de interrupção e suspensão do tempo mercadológico.


Byung-Chul Han
Byung-Chul Han

A cura e a elaboração psíquica exigem o que André Green chamava de "trabalho do negativo", a capacidade de suportar o vazio, a latência, a falta e a lentidão. Trata-se de restituir ao sujeito o direito à sua própria vulnerabilidade, libertando-o do imperativo da onipotência. Somente ao resgatar a dimensão do repouso não produtivo e ao validar o cansaço como um manifesto biológico e político do corpo, torna-se possível abrir vias para a emergência de um desejo autêntico e para o reencontro com a alteridade.






Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


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Fontes

CHAO, Li-Chuan et al. Chronic stress and the HPA axis: Neurobiological mechanisms and implications for burnout. Frontiers in Neuroendocrinology, Amsterdam, v. 62, p. 1009-1021, jul. 2021.

GREEN, André. O trabalho do negativo. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Jobim, 2011.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. Petrópolis: Voices, 2017.

MCEWEN, Bruce S. Neurobiological and systemic effects of chronic stress. Chronic Stress, Thousand Oaks, v. 1, n. 1, p. 1-11, jan. 2017.

PORGES, Stephen W. The polyvagal theory: New insights into adaptive reactions of the autonomic nervous system. Cleveland Clinic Journal of Medicine, Cleveland, v. 76, n. 2, p. S86-S90, abr. 2009.

ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. Tradução de Paulo Astor Soethe. São Paulo: Unesp, 2017.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 2000.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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