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Psicologia e produtividade: a Psicologia clínica não serve para te tornar um "explorado melhor"

Converso bastante com colegas psicólogos e noto que o eco que preenche as paredes dos consultórios contemporâneos mudou bastante de tom em relação à literatura de anos atrás. Não ouvimos mais, prioritariamente, o conflito clássico entre o desejo e a repressão moral, mas sim o lamento de uma exaustão que não se resolve com férias.


"Preciso de ferramentas para dar conta", diz o paciente. Ele chega à terapia como quem leva um carro à oficina: quer trocar uma peça, ajustar o motor do desempenho e voltar para a pista da produtividade o mais rápido possível. No entanto, o papel da psicologia clínica (quando exercida com rigor e ética) é justamente o oposto dessa manutenção técnica.


O problema central da nossa era é a patologização da falha em um sistema que exige a perfeição. O sofrimento psicológico, muitas vezes, não é um erro de processamento individual, mas a resposta biológica e subjetiva mais lógica a um ambiente doente. Se a psicologia se presta apenas a "funcionalizar" o sujeito para que ele suporte cargas de trabalho desumanas e pressões estéticas insustentáveis, ela deixa de ser clínica para se tornar uma engrenagem do próprio sistema que adoece.


Do Sujeito da Obediência ao Sujeito do Desempenho


Para entender por que o consultório não pode ser uma oficina, precisamos compreender a mutação estrutural da nossa sociedade. Michel Foucault descreveu a "sociedade disciplinar", composta por hospitais, prisões e fábricas, onde o indivíduo era moldado pelo dever e pela obediência. Havia um muro claro, uma autoridade externa que dizia "não". O sofrimento nascia da transgressão ou da repressão desse desejo.


engrenagens de relógio
Fonte Unsplash

Contudo, como aponta o filósofo contemporâneo Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço, nós transitamos para a "sociedade do desempenho". O muro foi derrubado e substituído por um horizonte infinito de possibilidades. O imperativo não é mais "você deve", mas "você pode". À primeira vista, parece libertador, mas é aqui que reside a armadilha mais perversa da modernidade: o sujeito do desempenho explora a si mesmo até o colapso, acreditando estar realizando sua liberdade.


Na clínica, isso se traduz no paciente que se culpa por descansar em um domingo sabendo que existem demandas atrasadas no trabalho. Ele não precisa de um capataz externo; ele internalizou a vigilância. Quando a psicologia entra nesse cenário apenas para oferecer "habilidades de enfrentamento" sem questionar a origem da demanda, ela está apenas lubrificando as correntes dessa autoexploração.


O Burnout como Limite Ontológico e Biológico


O burnout é frequentemente comercializado como uma "falta de resiliência" ou má gestão do tempo, fuga, enfim, um problema apenas individual. Essa é uma simplificação bastante superficial e perigosa. Sob a ótica da neurociência aplicada e da psicossomática, o esgotamento é o limite físico de uma ideologia que ignora a biologia humana.


fósforos queimando
Fonte Unsplash

Quando ignoramos sistematicamente os sinais de segurança do nosso organismo, ativamos de forma crônica o Eixo HPA (Hipotálamo-Pituitária-Adrenal). O corpo entra em um estado de carga alostática severa. Stephen Porges, em sua Teoria Polivagal, explica que nosso sistema nervoso precisa de sinais de "segurança social" para se autorregular. Em um ambiente de competição perpétua e comparação digital, o sistema simpático de "luta ou fuga" nunca desliga.


Por isso o consultório não pode ser o lugar onde "consertamos" o sistema de alerta do paciente para que ele pare de incomodar, isso vale ainda mais para os consultórios de psiquiatria. A ansiedade não é um defeito de fabricação; é um alarme. Se o ambiente é hostil, a ansiedade é a saúde tentando se manifestar através do desconforto. Tratar o sintoma como um erro técnico é silenciar a única parte do sujeito que ainda está tentando protegê-lo da aniquilação pelo excesso.


A Psique (Alma) e o Resgate da Singularidade


É imperativo resgatar o sentido da palavra "psicologia" a partir de sua raiz: o estudo da psique (alma). Conforme o rigor acadêmico exige, a alma aqui não é um conceito metafísico descolado da realidade, mas a totalidade da experiência subjetiva humana, o sopro vital que nos diferencia de máquinas de processamento de dados.


O capitalismo tardio tenta reduzir a psique a um conjunto de comportamentos mensuráveis. Se você dorme 8 horas, medita 15 minutos e usa uma técnica de produtividade, sua "alma" deveria estar em ordem. Mas a realidade da clínica nos mostra que o desejo humano é errante, complexo e, muitas vezes, improdutivo.


Donald Winnicott falava sobre a importância do "brincar" e da capacidade de ser e estar, antes do fazer. O consultório deve ser o espaço onde o sujeito tem a permissão para ser "inútil" aos olhos do mercado. É o lugar onde a dor não precisa ser transformada em um post motivacional, mas pode ser simplesmente sentida, nomeada e elaborada. A terapia não serve para te tornar um explorado melhor; serve para que você recupere a capacidade de dizer "não" às demandas que fragmentam sua identidade.


A Ética da Escuta contra a Ditadura da Solução


Vivemos na era da solução rápida. Queremos um diagnóstico em cinco minutos e um protocolo em três passos. No entanto, o processo de cura psíquica é um "trabalho do negativo", como descrevia André Green. É um processo de suportar o vazio, o não saber e a incerteza para que algo verdadeiramente singular possa emergir.


O terapeuta que atua como um "coach" de performance está, na verdade, exercendo uma violência simbólica contra o paciente. Ele reforça a ideia de que o indivíduo é o único responsável por seu sucesso ou fracasso, ignorando as atravessias sociológicas e antropológicas que nos moldam. Como disse Zygmunt Bauman, vivemos em tempos líquidos onde os vínculos são frágeis e a insegurança é a norma. Tentar resolver essa angústia apenas com "mudança de mentalidade" é como tentar tapar o sol com a peneira.


A verdadeira psicologia clínica oferece o que Wilfred Bion chamava de "continente": um espaço capaz de conter as angústias mais primitivas sem tentar eliminá-las imediatamente. A função da análise é permitir que o sujeito se desidentifique do papel de "recurso humano" e se reencontre com sua condição de humano, ponto.


A Psicologia clínica não é sobre produtividade, ela não serve para te tornar um "explorado melhor"


O meu consultório não é uma oficina porque o ser humano não é uma máquina. E nenhum consultório deveria ser, pois a psicologia clínica não é sobre produtividade, é um ato de resistência ética contra a desumanização, isso pelo simples fato de não ser saudável. Um psicólogo que opera dando suporte para o sujeito a se explorar é como o médico que prescreve cigarros e álcool a seus pacientes fumantes e alcoolistas.


mãos fazendo utensilio de barro
Fonte Unsplash

Quando um paciente percebe que seu cansaço não é uma falha de caráter, mas uma resposta legítima a uma cultura de excessos, algo tende a mudar. Ele deixa de ser um objeto passivo do desempenho e passa a ser o sujeito de sua própria história.


A cura não é o retorno à produtividade plena, mas a conquista da liberdade de não precisar ser produtivo o tempo todo. É a capacidade de estabelecer limites, de cultivar o ócio sem culpa, sem que ele seja "ócio produtivo" e de reconhecer que a vida acontece no intervalo entre as metas. O encontro clínico deve ser o território onde a alma recupera seu ritmo próprio, longe da aceleração frenética do mundo lá fora.


Reforçamos, portanto, a importância da escuta profunda. Em um mundo que exige respostas rápidas, a terapia devolve ao sujeito o direito de fazer perguntas. E é nessas perguntas, muitas vezes sem resposta imediata, que reside a nossa verdadeira saúde mental.






Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.



Conheça também meu livro clicando aqui.



Fontes

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BION, Wilfred R. Aprendendo com a experiência. Tradução de Paulo Dias Ferreira. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. 42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

GREEN, André. O trabalho do negativo. Tradução de Dorothée de Bruchard. Rio de Janeiro: Jobim, 2010.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

PORGES, Stephen W. Guia de bolso da teoria polivagal: o poder transformador de sentir-se seguro. Tradução de Marcelo de Abreu Filgueira. São Paulo: Cultrix, 2019.

WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


 
 
 

2 comentários


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23 de mai.

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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