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A linguagem do Corpo: sintomas psicossomáticos, quando o corpo avisa o que a mente ignora

Seu corpo já te avisou que algo ou algum ambiente não era para você?


arte pessoa com tubos em volta da cabeça
Fonte Unsplash

Talvez tenha sido um aperto na garganta antes de aceitar um convite. Um frio no estômago diante de uma escolha que, no papel, parecia perfeita. Ou um cansaço súbito, profundo, inexplicável, logo após dizer “sim” quando tudo em você queria dizer “não”.

São sinais discretos, muitas vezes ignorados, mas sintomas psicossomáticos. Vivemos em uma cultura que nos ensinou a confiar mais em planilhas do que em sensações, mais em argumentos do que em intuições corporais. E assim, seguimos adiante, mesmo quando o corpo começa a falar uma língua silenciosa e insistente.


Aos poucos, o que era apenas sensação vira sintoma. O que era aviso vira dor. Este texto é um convite a escutar o corpo não como obstáculo, mas como inteligência sensível.


O corpo decide antes: os sintomas psicossomáticos de Antonio Damasio


O neurocientista Antonio Damasio trouxe uma contribuição fundamental para compreender essa linguagem silenciosa. Segundo ele, nossas decisões não são tomadas apenas pela razão. Antes mesmo que pensemos conscientemente, o corpo já reagiu.

homem arranhando o peitoral
Fonte Unsplash

Damasio chamou esse processo de marcadores somáticos. De forma simples: são reações corporais automáticas como tensão, relaxamento, desconforto, bem-estar, que surgem a partir de experiências passadas e orientam nossas escolhas no presente.

Quando algo “não cai bem”, o corpo registra. Quando algo ameaça nossa integridade emocional, ele avisa. E faz isso em milissegundos, antes que a mente organize justificativas.


O problema não é sentir. O problema é desconfiar do que se sente. Aprendemos a chamar esses sinais de ansiedade, fraqueza ou exagero, quando, muitas vezes, são apenas formas sofisticadas de percepção.


O sintoma como verdade: Freud, Reich e a memória do corpo


Psicanalistas sempre souberam, desde Freud, que o corpo fala quando as palavras faltam. Freud afirmava que o sintoma não é um erro do organismo, mas uma formação de compromisso, uma tentativa do psiquismo de expressar aquilo que não pôde ser dito. O corpo, então, torna-se palco de conflitos silenciados.


arte homem segurando o vazio onde ficaria a cabeça
Fonte Unsplash

Wilhelm Reich aprofundou essa ideia ao afirmar que o corpo guarda a história emocional do sujeito. Tensões musculares, posturas rígidas, padrões respiratórios encurtados, tudo isso carrega marcas de experiências afetivas não elaboradas.


O corpo é o depositário da memória emocional. Ele lembra do que a mente esqueceu (ou tenta esquecer). Ele sustenta lembraças que nunca encontraram linguagem.

Assim, dores recorrentes, fadiga crônica, problemas gastrointestinais ou crises de ansiedade corporal sem causas fisiológicas que justifiquem, não são apenas disfunções isoladas. Muitas vezes, são tentativas desesperadas de comunicação.


Silenciar o corpo para continuar: a crítica de Byung-Chul Han


Byung-Chul Han nos ajuda a entender por que desaprendemos a escutar esses sinais. Vivemos em uma sociedade que valoriza a continuidade da produção acima da escuta de si.


  • Cansou? Café.

  • Ansiedade? Medicação.

  • Desconforto? Normaliza e segue.


Na sociedade do desempenho, o corpo é tratado como uma máquina que não pode parar. Seus avisos são interpretados como falhas, não como mensagens. A dor precisa ser rapidamente neutralizada para que a engrenagem continue funcionando.


homem dormindo com a cabeça e braços apoiados em sua mochila em um ônibus
Fonte Unsplash

Han critica essa lógica ao mostrar que eliminamos o sofrimento sem compreender seu sentido. Ao anestesiar o corpo, silenciamos também a possibilidade de transformação. A pergunta deixa de ser “o que isso quer me dizer?” e passa a ser “como faço isso parar?”.

O corpo, então, grita. Porque falar baixo não funcionou.


Dar palavras ao corpo: a clínica como espaço de tradução


Na clínica, uma das ferramentas mais óbvia e potente ao mesmo tempo, é dar palavras ao corpo. Não para eliminar os sintomas psicossomáticos imediatamente, mas para compreender suas funções. Quando o sujeito consegue nomear o que sente, o corpo não precisa mais carregar sozinho esse peso. A dor deixa de ser o único canal de comunicação.


Perguntas simples, mas profundas, costumam abrir caminhos:

  • O que estava acontecendo na sua vida quando isso começou?

  • O que você sentiu, mas não pôde expressar?

  • Onde no corpo isso aparece? Quando aumenta? Quando alivia?


Aos poucos, o sintoma perde sua função exclusiva. O corpo pode descansar a partir da simbolização. A palavra pode não cura tudo, mas divide o fardo.


Respeitar os próprios limites é um gesto de cuidado


Talvez maturidade emocional não seja aprender a suportar tudo. Talvez seja aprender a escutar antes que doa.


mão humana sentindo o toque do capim
Fonte Unsplash

O corpo não é um inimigo da razão. Ele é um aliado antigo, sensível, atento. Ele percebe quando algo nos violenta, quando nos afastamos demais de nós mesmos, quando ultrapassamos limites em nome de expectativas que não são nossas.


Respeitar o corpo é respeitar a própria história. É aceitar que nem tudo que faz sentido para os outros faz sentido para nós. É permitir-se parar, recuar, escolher diferente.


Se o corpo está falando, talvez seja hora de ouvir. Com menos pressa. Com mais gentileza.




Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes

DAMÁSIO, António. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. Tradução de Dora Vicente e Georgina Segurado. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria. Tradução de Laura de Freitas Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.

REICH, Wilhelm. Análise do caráter. Tradução de Ricardo Amaral. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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