Narcisismo Digital: Como a perda da alteridade gera burnout e depressão
- Herson Alex

- 8 de jan.
- 5 min de leitura
Uma leitura psicanalítica de A Expulsão do Outro, de Byung-Chul Han
Quando o outro desaparece, o eu adoece

Vivemos em uma época paradoxal. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão solitários. Cercados por vozes, imagens e opiniões, experimentamos uma estranha sensação de vazio, como se algo essencial estivesse ausente. Esse algo, segundo Byung-Chul Han, é o Outro.
Em A Expulsão do Outro, Han diagnostica uma transformação silenciosa, porém radical, da experiência humana: a eliminação progressiva da alteridade. Não se trata apenas de intolerância ao diferente, mas de algo mais profundo: a substituição do encontro pelo espelhamento, da relação pela autoexposição, do conflito pela confirmação.
Nesse cenário, o sofrimento psíquico contemporâneo, como o burnout, depressão, ansiedade constante, deixa de ser apenas um problema individual e revela seu caráter estrutural e cultural.
O espelho digital: redes sociais e o mito de Narciso
Narciso não se perdeu no outro, mas em si mesmo

O mito de Narciso, frequentemente associado ao amor excessivo por si, ganha uma nova leitura na era digital. Narciso não morre por se amar demais, mas por não conseguir sair de si. Ele se apaixona por um reflexo, incapaz de encontrar alteridade. As redes sociais operam de modo semelhante:
Algoritmos filtram o que vemos;
Opiniões divergentes são silenciadas;
O estranho é tratado como ameaça;
O desconforto é bloqueado ou denunciado.
O que resta é um espelho permanente, onde o sujeito se vê, se projeta e se confirma incessantemente.
Byung-Chul Han afirma que o digital não é um espaço do encontro, mas da autoafirmação narcisista. Não há negatividade suficiente para produzir transformação. O outro, quando aparece, surge apenas como extensão do mesmo.
A expulsão do diferente e o empobrecimento da experiência
O que é alteridade e por que ela dói

A alteridade não é confortável. O outro nos contraria, nos frustra, nos obriga a rever certezas. É justamente por isso que ele é essencial ao amadurecimento psíquico.
Han é contundente:
Onde o outro desaparece, o eu se absolutiza e adoece.
Na sociedade contemporânea, tudo aquilo que gera atrito é evitado:
Relações são descartadas diante do conflito;
Diferenças viram ataques pessoais;
Silêncios são interpretados como rejeição.
Essa expulsão do negativo cria um mundo liso, sem resistência. Mas, paradoxalmente, é essa lisura que gera sofrimento. Sem o outro, não há:
Diálogo real;
Transformação simbólica;
Limite para o eu.
Narcisismo digital e saúde mental em 2026
Quando o mundo vira palco e o sujeito, produto

Em 2026, falar de saúde mental sem considerar o impacto do digital é insuficiente. O sujeito contemporâneo é constantemente convocado a se expor, performar e otimizar.
Essa lógica produz um tipo específico de sofrimento:
Cansaço de existir;
Sensação de inadequação constante;
Angústia sem objeto claro;
Depressão associada à sensação de vazio.
Han descreve esse fenômeno como a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. Não somos mais obrigados por um outro externo; somos pressionados por um ideal interno. O narcisismo digital intensifica esse processo, pois o sujeito passa a:
Vigiar a si mesmo;
Comparar-se continuamente;
Transformar a própria vida em projeto.
Burnout e o “eu” hiperativo
O esgotamento sem inimigo

O burnout clássico está ligado ao excesso de trabalho. O burnout contemporâneo, porém, nasce de algo mais sutil: a ausência de resistência. Na leitura de Byung-Chul Han:
O sujeito de desempenho explora a si mesmo;
Não há um opressor externo identificável;
O conflito desaparece;
O eu se consome por dentro.
O burnout ocorre quando o sujeito gira em torno de si mesmo, sem o freio simbólico que o outro oferece. Sem alteridade, não há descanso psíquico. Do ponto de vista psicanalítico, isso significa:
Colapso do desejo;
Inflação do ideal do eu;
Superego disfarçado de motivação.
A clínica do vazio: depressão como sintoma da expulsão do outro
Quando nada dói e nada faz sentido
A depressão contemporânea não é apenas tristeza. Muitas vezes, ela se manifesta como:
Apatia;
Desconexão afetiva;
Sensação de irrealidade;
Falta de sentido.
Na clínica atual é comum observar sujeitos que “tem tudo”, mas não sente nada. Essa anestesia emocional está diretamente ligada à perda da alteridade.
Sem o outro:
O desejo não circula;
O discurso se empobrece;
O sofrimento não encontra simbolização;
A psicanálise compreende o vazio não como ausência pura, mas como efeito de um laço rompido. Onde não há relação, o sujeito se fecha sobre si e esse fechamento adoece.
Byung-Chul Han e a crítica à positividade excessiva
Han denuncia a positividade tóxica como uma forma contemporânea de violência. Tudo deve ser afirmativo, produtivo, inspirador. Mas o outro, por definição, é negativo. Ele interrompe, questiona, resiste. Ao expulsarmos o negativo:
Perdemos profundidade;
Perdemos escuta;
Perdemos humanidade.
A clínica, nesse contexto, torna-se um dos poucos espaços onde o outro ainda pode existir sem ser eliminado.
O resgate da alteridade na psicologia clínica
Escutar é permitir que o outro exista
Na psicoterapia, o encontro com o outro não é performático. Ele exige tempo, silêncio e tolerância à frustração. O processo terapêutico oferece:
Um espaço sem algoritmos;
Um vínculo não otimizado;
Uma escuta que não julga;
Uma presença que resiste.
Ao sustentar a alteridade, a clínica ajuda o sujeito a sair do espelho e reencontrar o mundo.
Caminhos possíveis: escuta, silêncio e limite
Resistir ao narcisismo digital não significa abandonar a tecnologia, mas reaprender a habitar o intervalo. Algumas atitudes clínicas e existenciais incluem:
Recuperar o valor do silêncio;
Sustentar conversas sem respostas rápidas;
Aceitar o desconforto do desacordo;
Reconhecer limites como proteção psíquica.
O outro não é ameaça. Ele é condição de possibilidade do desejo.
Quando o outro retorna, o eu respira

A expulsão do outro produz um sujeito cansado, deprimido e isolado. O narcisismo digital não fortalece o eu; ele o esgota.
Resgatar a alteridade é mais do que um gesto ético, é uma necessidade básica de saúde mental.
Talvez o caminho de cura não esteja em mais autoanálise, mais produtividade emocional ou mais exposição, mas em algo radicalmente simples e difícil: voltar a escutar.
Escutar o outro.
Escutar o silêncio.
Escutar o que resiste.
Porque é no encontro, e não no espelho, que o sujeito finalmente descansa.
E você?
Sente que está cansado de se olhar o tempo todo e não encontrar nada?
Que tal refletir: quando e quem foi o último outro que realmente significou algo para você e por quê? Se esse vazio tem pesado demais, buscar apoio profissional pode ser um primeiro gesto de retorno ao vínculo.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
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Fonte
HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.



Você acha que sua frase, “Porque é no encontro, e não no espelho, que o sujeito finalmente descansa.”, se relaciona de alguma forma com as ideias expostas por Alan Watts em The Wisdom of Insecurity? Quais?