Por que amar está tão difícil? Amor contemporâneo, pressa e vínculos
- Herson Alex

- 22 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Por que amar está tão difícil?
O amor sempre foi um assunto bastante falado, mas talvez, nunca tenha sido tão difícil amar quanto na nossa época. Vivemos cercados por discursos sobre relacionamentos saudáveis, inteligência emocional, comunicação assertiva e autoestima. Há livros, cursos, perfis nas redes sociais e frases motivacionais prometendo ensinar como amar melhor. Ainda assim, o que se observa na experiência cotidiana e na clínica é um cenário recorrente de relações breves, bastante intensas, mas marcadas por frustração, cansaço e sensação de vazio.

O amor, que deveria ser espaço de encontro, tem se tornado, para muitos, fonte de ansiedade. Ama-se com medo. Ama-se com pressa de perder tempo. Ama-se como quem tenta evitar a dor a qualquer custo e, paradoxalmente, acaba encontrando-a com ainda mais força.
A pergunta que atravessa este texto não é romântica, mas necessária: por que amar ficou tão difícil? Será que o amor na contemporaneidade é assim? O que aconteceu com os vínculos em um tempo que promete liberdade, escolha e felicidade permanente? Talvez a resposta não esteja no indivíduo isolado, mas na forma como organizamos o tempo, o desejo e as relações na contemporaneidade.
Amor contemporâneo e pressa: quando o tempo deixa de sustentar o vínculo
Vivemos sob a lógica da aceleração. Tudo precisa acontecer rápido: o trabalho, o consumo, o entretenimento e também o amor. A disponibilidade psíquica necessária para o encontro foi substituída por agendas lotadas, notificações constantes e a sensação crônica de falta de tempo.
O sociólogo Hartmut Rosa descreve esse fenômeno como aceleração social: não apenas fazemos mais coisas em menos tempo, como passamos a nos relacionar de forma acelerada. O problema é que o amor não amadurece na pressa. Ele exige tempo compartilhado, repetição, presença e atravessamento dos conflitos.

Quando o tempo se torna escasso, o vínculo sofre. O encontro é adiado, a escuta é apressada, o cuidado vira obrigação. O amor passa a existir apenas nos intervalos da produtividade e isso cobra um preço alto: a superficialidade das relações.
Vínculos líquidos e o medo de permanecer
Zygmunt Bauman, ao falar do amor líquido, descreve relações frágeis, facilmente descartáveis, moldadas pela lógica do consumo. Ama-se enquanto é confortável. Permanece-se enquanto não há conflito excessivo. O vínculo deixa de ser espaço de construção para se tornar um contrato provisório.
Queremos intimidade, mas tememos a dependência. Desejamos o encontro, mas fugimos da entrega. O resultado é um paradoxo de relações cada vez mais curtas e uma sensação crescente de solidão.

O medo de permanecer não nasce apenas da "covardia" individual, mas de uma cultura que associa liberdade à ausência de laços. Amar passa a ser visto como risco demais. E assim, evitamos o risco ao custo do próprio encontro.
Narcisismo, performance e o amor como espetáculo
Nas redes sociais, o amor virou vitrine. Relações são exibidas, performadas, validadas por curtidas e comentários. O problema não está em compartilhar momentos, mas em quando o vínculo passa a existir mais para o olhar do outro do que para quem o vive.
Byung-Chul Han aponta que vivemos na sociedade da performance e da positividade excessiva. Tudo precisa parecer bem, inclusive o amor. Crises são ocultadas. Silêncios são suspeitos. O sofrimento é tratado como falha pessoal.

Nesse cenário, amar se confunde com manter uma imagem. A relação deixa de ser espaço de vulnerabilidade para se tornar palco. E onde não há espaço para falhar, também não há espaço para amar de verdade.
Desejo, falta e a armadilha da idealização
A psicanálise nos ensina que o desejo nasce da falta. E foi Jacques Lacan quem afirmou que amamos não porque estamos completos, mas porque algo nos falta. O problema surge quando projetamos no outro a tarefa de nos completar.
Criamos, assim, imagens idealizadas do o parceiro perfeito, a relação sem conflitos, o amor que tudo resolve. Roland Barthes descreveu com precisão esse movimento ao compreender que amar é, em parte, construir ficções. O sofrimento começa quando exigimos que o outro sustente a fantasia.

A idealização impede o encontro real. Quando o outro falha, e ele sempre falhará, a frustração se instala. Não porque o amor acabou, mas porque a fantasia caiu.
Trauma, repetição e o amor que dói
Na clínica, é comum observar histórias que se repetem. Mas não precisa ser psicólogo para saber de pessoas que se envolvem com parceiros indisponíveis, controladores ou emocionalmente ausentes. Talvez isso tenha acontecido com você ou esteja acontecendo neste exato momento. Não por escolha consciente, mas por repetição inconsciente.
Donald Winnicott fala do medo do colapso, que é um temor que não aponta para o futuro, mas para algo que já aconteceu. O amor, então, se torna tentativa de reparação do passado. Ama-se esperando que, desta vez, a ferida seja curada.

Mas o amor não cura traumas sozinho. Quando nasce do medo e da carência extrema, tende a reproduzir a dor. Reconhecer isso não é desistir do amor, mas criar a possibilidade de transformá-lo em ti, para ti.
Escuta, silêncio e maturidade emocional
Em um mundo barulhento, o ato de escutar tornou-se quase revolucionário. Escutar é mais do que ouvir palavras: é acolher o que está por trás delas, é silenciar o próprio ego para abrir espaço ao outro.
Heidegger nos lembra que o silêncio não é ausência, mas abertura. E é Kierkegaard quem mostra que amar é sustentar a incerteza. Relações maduras não se constroem na fala excessiva, mas na presença que suporta o que muitas vezes não é dito.

O amor precisa de silêncio, de pausa, de tempo sem finalidade. Precisa de escuta verdadeira, aquela que não busca consertar, mas compreender.
Amor como prática e resistência
Talvez o maior equívoco contemporâneo seja tratar o amor como promessa. Prometer é fácil. Sustentar é difícil. Michel Foucault nos ensina que o cuidado é uma prática ética. Amar, então, não é apenas sentir, mas cuidar. Cuidar do vínculo, do tempo, da palavra, do silêncio. Em um mundo que convida ao descarte, amar é resistir.

Não há nada mais político hoje do que continuar amando quando tudo à volta incentiva a desistência. Não por obrigação, mas por escolha consciente.
O amor não salva, mas sustenta
O amor não vem para preencher vazios, curar feridas antigas ou garantir felicidade permanente. Muita gente erra ao acreditar isso. É romantizar o amor. Parece contraditório, eu sei. Mas o que o amor faz é sustentar. Ele sustenta o encontro entre dois sujeitos incompletos, que escolhem permanecer apesar do medo, da pressa e das falhas.
Talvez amar esteja difícil porque exige mais do que desejo. Exige trabalho, presença e maturidade emocional. Não de sujeitos prontos, mas de pessoas comprometidas ativamente consigo e suas questões psicológicas e emocionais.
Essas reflexões fazem parte de um trabalho mais amplo, desenvolvido a partir da clínica, da escuta e de uma série de lives nas redes sociais e ensaios sobre o amor contemporâneo, reunidos no livro O Amor que Fere, o Amor que Sustenta. Um convite a pensar o amor não como promessa, mas como prática possível.
Se essas reflexões tocaram algo em você, elas seguem aprofundadas no livro O Amor que Fere, o Amor que Sustenta, um conjunto de ensaios sobre amar com mais consciência em tempos de pressa, trauma e superficialidade.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.
Fontes
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2003.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito: curso no Collège de France (1981-1982). São Paulo: Martins Fontes, 2006.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.
KIERKEGAARD, Søren. As obras do amor: algumas reflexões cristãs em forma de discursos. Petrópolis: Vozes, 2013.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. São Paulo: Unesp, 2017.
WINNICOTT, Donald W. O medo do colapso e outros ensaios. Porto Alegre: Artmed, 1994.







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