O DESAPARECIMENTO DOS RITUAIS: BYUNG-CHUL HAN, O TEMPO, O VÍNCULO E O ADOECIMENTO PSÍQUICO CONTEMPORÂNEO
- Herson Alex

- 17 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Byung-Chul Han afirma, logo no início do livro: "O Desaparecimento dos Rituais", que vivemos uma profunda crise simbólica. Não se trata apenas da perda de costumes tradicionais ou religiosos, mas do esvaziamento de estruturas que organizavam o tempo, o corpo, as relações e a experiência subjetiva. Os rituais, segundo Han, não eram apenas repetições culturais: eram tecnologias de sentido. Assim como as casas são moradas no espaço, os rituais são moradas no tempo.

Na sociedade contemporânea, marcada pela aceleração, pela hipercomunicação e pela lógica da performance, os rituais se tornam supérfluos. O tempo perde densidade, o vínculo perde espessura e a vida se fragmenta em uma sucessão infinita de estímulos. O ato de "maratonar" séries se torna símbolo desse momento, não há tempo para o refletir, somente os estímulos sucessivos entre episódios e temporadas. Até isso virou produtividade: "tenho que colocar as séries em dia". O resultado não é liberdade e descanso, mas desorientação e, cada vez mais, sofrimento psíquico.
O texto de Han propõe uma leitura reflexiva, articulando suas ideias com autores da psicologia, da psicanálise, da sociologia e da filosofia, para pensar o que está em jogo quando os rituais desaparecem: o enfraquecimento do laço social, a dificuldade de simbolização da dor, a precarização da identidade e o aumento do mal-estar contemporâneo.
O que são rituais? Muito além da tradição
O que Byung-Chul Han chama de desaparecimento dos rituais

Han define os rituais como ações simbólicas repetidas que estabilizam a vida. Eles criam pausas, limites e formas. Diferentemente dos hábitos automáticos, os rituais têm valor simbólico: marcam transições, inauguram tempos, encerram ciclos.
Rituais não servem para produzir algo; servem para dar forma à experiência. Um ritual de luto, por exemplo, não elimina a dor, mas a torna compartilhável, nomeável, suportável. Um ritual de passagem não acelera a vida, mas a ancora.
Aqui Han dialoga implicitamente com Émile Durkheim, que via nos rituais coletivos o fundamento da coesão social. Para Durkheim, o ritual transforma o indivíduo em parte de algo maior. Ele cria pertencimento, memória e continuidade.
Quando os rituais desaparecem, o sujeito fica sozinho diante da própria experiência e isso cobra um preço psíquico alto.
A aceleração do tempo e o colapso da experiência

Um dos eixos centrais do livro é a relação entre ritual e tempo. Rituais exigem repetição, lentidão e previsibilidade. A sociedade contemporânea, porém, é regida pela aceleração. Hartmut Rosa, sociólogo alemão frequentemente associado às obras de Han, descreve esse fenômeno como “aceleração social”: tudo precisa ser rápido, flexível, adaptável.
O tempo ritualístico é circular; o tempo contemporâneo é fragmentado. Vivemos em uma sucessão de “agoras” desconectados. Isso impacta diretamente na saúde mental. Sem marcos temporais, a experiência se torna difusa, e o sujeito perde a sensação de continuidade de si mesmo.
Acredito que todo colega já escutou relatos que sugerem tal análise. Isso aparece como sensação de vazio, desorientação existencial, ansiedade difusa e dificuldade de elaborar experiências. O sofrimento não encontra forma porque não encontra tempo.
Do ritual ao consumo: a substituição simbólica

Han observa que, no lugar dos rituais, surge o consumo. Mas o consumo não cria comunidade; cria excitação momentânea. Enquanto o ritual estabiliza, o consumo acelera. Enquanto o ritual cria memória, o consumo produz esquecimento.
Zygmunt Bauman já havia apontado esse movimento ao falar da “modernidade líquida”: vínculos frágeis, identidades instáveis e relações descartáveis. O ritual exige compromisso; o consumo exige apenas desejo momentâneo.
O resultado é uma subjetividade constantemente estimulada, mas profundamente vazia. A ausência de rituais empobrece a experiência simbólica e enfraquece a capacidade de lidar com perdas, frustrações e limites.
O desaparecimento do “nós” e a solidão estrutural
Rituais criam comunidade. Eles transformam indivíduos em participantes de algo comum, mesmo que não haja comunicação. Na ausência de rituais, o “nós” se dissolve, e sobra apenas o “eu”, sobrecarregado, exigido, isolado, mesmo conseguindo se comunicar. É uma conexão sem comunidade.

Han afirma que vivemos uma sociedade da hiperindividualização, onde tudo se torna projeto pessoal: felicidade, sucesso, bem-estar, espiritualidade. Até o sofrimento vira responsabilidade individual.
Isso dialoga diretamente com Freud, especialmente em O Mal-Estar na Civilização. Freud já alertava que a ruptura dos laços simbólicos aumenta o sofrimento psíquico. O sujeito precisa carregar sozinho aquilo que antes era sustentado coletivamente.
Ritual, corpo e presença

Outro ponto fundamental do livro é a relação entre ritual e corpo. Rituais exigem presença corporal, repetição gestual, espacialidade. Eles ancoram o sujeito no corpo e no mundo.
A sociedade digital, porém, promove uma experiência cada vez mais descorporificada. Vivemos conectados, mas não presentes. Comunicamos muito, mas compartilhamos pouco enquanto comunidade.
Maurice Merleau-Ponty já afirmava que o corpo é a base da experiência de mundo. Sem rituais corporais, perdemos a capacidade de sentir a vida de forma encarnada. Isso contribui para fenômenos como dissociação, ansiedade somática e sensação de irrealidade.
O luto sem ritual e a dor sem forma

Um dos efeitos mais graves do desaparecimento dos rituais é a dificuldade de elaborar o luto. Rituais funerários, despedidas e cerimônias sempre funcionaram como dispositivos simbólicos para lidar com a perda.
Na sociedade contemporânea, o luto é frequentemente apressado, silenciado ou patologizado. Espera-se que o sujeito “supere rápido”. Mas dor que não encontra forma retorna como sintoma.
Aqui Han dialoga com a ideia, presente também em Sociedade Paliativa, de que a dor se torna um erro técnico. Sem rituais, o sofrimento perde linguagem e o sujeito perde recursos psíquicos para atravessá-lo.
Psicologia, a clínica e o resgate do ritual
O espaço terapêutico pode ser compreendido, em muitos aspectos, como um ritual contemporâneo. Ele cria regularidade, tempo protegido, repetição e escuta. Não resolve a dor rapidamente, mas oferece forma para que ela seja elaborada.

A clínica psicológica, nesse sentido, resgata algo que a sociedade perdeu: a possibilidade de habitar a experiência sem transformá-la imediatamente em desempenho ou correção.
Winnicott falava da importância do “ambiente suficientemente bom”. Os rituais, assim como o setting terapêutico, criam esse ambiente simbólico de sustentação. Ainda que não consiga criar comunidade, é um lugar onde o sujeito pode se ancorar e refletir sobre sua subjetividade e pertencimento no tempo e espaço onde habita.
Sem rituais, a vida se fragmenta

O desaparecimento dos rituais não é um detalhe cultural; é um sintoma coletivo profundo da crise contemporânea. Sem rituais, perdemos o ritmo, o corpo, o vínculo e o sentido. A vida se torna funcional, mas não habitável.
Byung-Chul Han nos convida a repensar não apenas o que fazemos, mas como vivemos o tempo, o sofrimento e o encontro com o outro. Talvez resgatar rituais, antigos ou reinventados, seja uma das tarefas éticas e clínicas mais urgentes do nosso tempo.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
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Fontes
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução de Paulo Neves. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. Tradução de R. S. Silva e P. S. S. Silva. São Paulo: Editora Unesp, 2022.
WINNICOTT, Donald Woods. A família e o desenvolvimento individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Ubu Editora, 2022.







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