top of page
Buscar

O DESAPARECIMENTO DOS RITUAIS: BYUNG-CHUL HAN, O TEMPO, O VÍNCULO E O ADOECIMENTO PSÍQUICO CONTEMPORÂNEO

Byung-Chul Han afirma, logo no início do livro: "O Desaparecimento dos Rituais", que vivemos uma profunda crise simbólica. Não se trata apenas da perda de costumes tradicionais ou religiosos, mas do esvaziamento de estruturas que organizavam o tempo, o corpo, as relações e a experiência subjetiva. Os rituais, segundo Han, não eram apenas repetições culturais: eram tecnologias de sentido. Assim como as casas são moradas no espaço, os rituais são moradas no tempo.


silhueta de uma pessoa andando na beira do mar

Na sociedade contemporânea, marcada pela aceleração, pela hipercomunicação e pela lógica da performance, os rituais se tornam supérfluos. O tempo perde densidade, o vínculo perde espessura e a vida se fragmenta em uma sucessão infinita de estímulos. O ato de "maratonar" séries se torna símbolo desse momento, não há tempo para o refletir, somente os estímulos sucessivos entre episódios e temporadas. Até isso virou produtividade: "tenho que colocar as séries em dia". O resultado não é liberdade e descanso, mas desorientação e, cada vez mais, sofrimento psíquico.


O texto de Han propõe uma leitura reflexiva, articulando suas ideias com autores da psicologia, da psicanálise, da sociologia e da filosofia, para pensar o que está em jogo quando os rituais desaparecem: o enfraquecimento do laço social, a dificuldade de simbolização da dor, a precarização da identidade e o aumento do mal-estar contemporâneo.


O que são rituais? Muito além da tradição


O que Byung-Chul Han chama de desaparecimento dos rituais


um templo religioso com cadeiras vazias

Han define os rituais como ações simbólicas repetidas que estabilizam a vida. Eles criam pausas, limites e formas. Diferentemente dos hábitos automáticos, os rituais têm valor simbólico: marcam transições, inauguram tempos, encerram ciclos.


Rituais não servem para produzir algo; servem para dar forma à experiência. Um ritual de luto, por exemplo, não elimina a dor, mas a torna compartilhável, nomeável, suportável. Um ritual de passagem não acelera a vida, mas a ancora.


Aqui Han dialoga implicitamente com Émile Durkheim, que via nos rituais coletivos o fundamento da coesão social. Para Durkheim, o ritual transforma o indivíduo em parte de algo maior. Ele cria pertencimento, memória e continuidade.


Quando os rituais desaparecem, o sujeito fica sozinho diante da própria experiência e isso cobra um preço psíquico alto.


A aceleração do tempo e o colapso da experiência



um entregador de comida montado em uma bicicleta em movimento em preto e branco

Um dos eixos centrais do livro é a relação entre ritual e tempo. Rituais exigem repetição, lentidão e previsibilidade. A sociedade contemporânea, porém, é regida pela aceleração. Hartmut Rosa, sociólogo alemão frequentemente associado às obras de Han, descreve esse fenômeno como “aceleração social”: tudo precisa ser rápido, flexível, adaptável.

O tempo ritualístico é circular; o tempo contemporâneo é fragmentado. Vivemos em uma sucessão de “agoras” desconectados. Isso impacta diretamente na saúde mental. Sem marcos temporais, a experiência se torna difusa, e o sujeito perde a sensação de continuidade de si mesmo.


Acredito que todo colega já escutou relatos que sugerem tal análise. Isso aparece como sensação de vazio, desorientação existencial, ansiedade difusa e dificuldade de elaborar experiências. O sofrimento não encontra forma porque não encontra tempo.


Do ritual ao consumo: a substituição simbólica


carrinho de supermercado caído em uma rua deserta a noite

Han observa que, no lugar dos rituais, surge o consumo. Mas o consumo não cria comunidade; cria excitação momentânea. Enquanto o ritual estabiliza, o consumo acelera. Enquanto o ritual cria memória, o consumo produz esquecimento.


Zygmunt Bauman já havia apontado esse movimento ao falar da “modernidade líquida”: vínculos frágeis, identidades instáveis e relações descartáveis. O ritual exige compromisso; o consumo exige apenas desejo momentâneo.


O resultado é uma subjetividade constantemente estimulada, mas profundamente vazia. A ausência de rituais empobrece a experiência simbólica e enfraquece a capacidade de lidar com perdas, frustrações e limites.


O desaparecimento do “nós” e a solidão estrutural


Rituais criam comunidade. Eles transformam indivíduos em participantes de algo comum, mesmo que não haja comunicação. Na ausência de rituais, o “nós” se dissolve, e sobra apenas o “eu”, sobrecarregado, exigido, isolado, mesmo conseguindo se comunicar. É uma conexão sem comunidade.


coletivo de pessoas próximas olhando fixamente cada uma para seu próprio celular

Han afirma que vivemos uma sociedade da hiperindividualização, onde tudo se torna projeto pessoal: felicidade, sucesso, bem-estar, espiritualidade. Até o sofrimento vira responsabilidade individual.


Isso dialoga diretamente com Freud, especialmente em O Mal-Estar na Civilização. Freud já alertava que a ruptura dos laços simbólicos aumenta o sofrimento psíquico. O sujeito precisa carregar sozinho aquilo que antes era sustentado coletivamente.


Ritual, corpo e presença


silhueta de uma pessoa atras de um tecido em preto e branco

Outro ponto fundamental do livro é a relação entre ritual e corpo. Rituais exigem presença corporal, repetição gestual, espacialidade. Eles ancoram o sujeito no corpo e no mundo.


A sociedade digital, porém, promove uma experiência cada vez mais descorporificada. Vivemos conectados, mas não presentes. Comunicamos muito, mas compartilhamos pouco enquanto comunidade.


Maurice Merleau-Ponty já afirmava que o corpo é a base da experiência de mundo. Sem rituais corporais, perdemos a capacidade de sentir a vida de forma encarnada. Isso contribui para fenômenos como dissociação, ansiedade somática e sensação de irrealidade.


O luto sem ritual e a dor sem forma


cadeira em pé em um lugar abandonado

Um dos efeitos mais graves do desaparecimento dos rituais é a dificuldade de elaborar o luto. Rituais funerários, despedidas e cerimônias sempre funcionaram como dispositivos simbólicos para lidar com a perda.

Na sociedade contemporânea, o luto é frequentemente apressado, silenciado ou patologizado. Espera-se que o sujeito “supere rápido”. Mas dor que não encontra forma retorna como sintoma.


Aqui Han dialoga com a ideia, presente também em Sociedade Paliativa, de que a dor se torna um erro técnico. Sem rituais, o sofrimento perde linguagem e o sujeito perde recursos psíquicos para atravessá-lo.


Psicologia, a clínica e o resgate do ritual


O espaço terapêutico pode ser compreendido, em muitos aspectos, como um ritual contemporâneo. Ele cria regularidade, tempo protegido, repetição e escuta. Não resolve a dor rapidamente, mas oferece forma para que ela seja elaborada.


cadeira de leitura com abajur e um livro na mesa ao lado em preto e branco

A clínica psicológica, nesse sentido, resgata algo que a sociedade perdeu: a possibilidade de habitar a experiência sem transformá-la imediatamente em desempenho ou correção.


Winnicott falava da importância do “ambiente suficientemente bom”. Os rituais, assim como o setting terapêutico, criam esse ambiente simbólico de sustentação. Ainda que não consiga criar comunidade, é um lugar onde o sujeito pode se ancorar e refletir sobre sua subjetividade e pertencimento no tempo e espaço onde habita.


Sem rituais, a vida se fragmenta

reflexo de uma mulher desfocado em um espelho quebrado preto e branco

O desaparecimento dos rituais não é um detalhe cultural; é um sintoma coletivo profundo da crise contemporânea. Sem rituais, perdemos o ritmo, o corpo, o vínculo e o sentido. A vida se torna funcional, mas não habitável.


Byung-Chul Han nos convida a repensar não apenas o que fazemos, mas como vivemos o tempo, o sofrimento e o encontro com o outro. Talvez resgatar rituais, antigos ou reinventados, seja uma das tarefas éticas e clínicas mais urgentes do nosso tempo.









Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa: o sistema totêmico na Austrália. Tradução de Paulo Neves. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais: uma topologia do presente. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade. Tradução de R. S. Silva e P. S. S. Silva. São Paulo: Editora Unesp, 2022.

WINNICOTT, Donald Woods. A família e o desenvolvimento individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

 
 
 

Comentários


  • Whatsapp
  • Instagram
  • Facebook
  • LinkedIn
  • Redes sociais

© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

bottom of page