Algofobia e a Sociedade Paliativa: por que temos tanto medo da dor?
- Herson Alex

- 24 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
A intolerância contemporânea ao desconforto
Vivemos em um tempo curioso e profundamente adoecedor. Qualquer incômodo precisa ser rapidamente resolvido. Qualquer tristeza deve ser superada. Qualquer dor exige anestesia imediata. Não se trata apenas de evitar o sofrimento extremo, mas de eliminar qualquer forma de negatividade da experiência humana.

Um pequeno mal-estar vira diagnóstico em uma pesquisa no Google. Um cansaço vira falha pessoal que deve ser aliviada com café e, mais na moda, bebidas "energéticas". Uma angústia vira algo a ser silenciado. Não mais espaço para reflexão, apenas fuga do mal estar.
Essa intolerância radical ao desconforto não é casual. Ela revela uma transformação cultural profunda, que o filósofo Byung-Chul Han nomeia como Sociedade Paliativa. Trata-se de uma sociedade que tem horror à dor e busca neutralizá-la antes mesmo de compreendê-la.
O resultado não é uma vida mais saudável, mas uma existência anestesiada, frágil e vazia de sentido.
Sociedade Paliativa e Algofobia: o medo estrutural da dor
A algofobia é o medo intenso da dor. No campo clínico, pode aparecer como fobia específica. Mas, em um nível cultural, ela se manifesta como algo mais amplo. Podemos compreender ela como uma aversão coletiva a tudo aquilo que desorganiza, fere ou frustra.

Byung-Chul Han afirma que vivemos em uma sociedade que transformou a dor em um erro técnico. Em Sociedade Paliativa, ele escreve, de forma indireta, que o sofrimento deixou de ser uma experiência existencial para se tornar um defeito a ser corrigido.
A dor não pode mais ensinar. Agora, ela apenas atrapalha.
Essa lógica invade a saúde mental, onde muitas vezes se busca eliminar rapidamente os sintomas sem escutar o que eles comunicam. O sofrimento perde sua linguagem simbólica e retorna como exaustão crônica, ansiedade difusa e sensação de vazio. Não buscamos entender e acolher a "criança interna", apenas damos um smartphone para ela se alienar e nos deixar em paz.
Byung-Chul Han e o imperativo da positividade
Na Sociedade do Desempenho, descrita por Han, não há espaço para o “não”. Tudo deve ser afirmativo, produtivo e motivador. Esse excesso de positividade cria o que ele chama de violência neuronal: não uma opressão externa, mas um esgotamento interno.
Aqui, a dor é vista como fraqueza.
O limite, como incompetência.
O sofrimento, como falha pessoal.

Essa dinâmica está diretamente ligada ao aumento de quadros de burnout, depressão e ansiedade. Não porque sofremos demais, mas porque o imperativo da lógica do desempenho afirma que não podemos mais sofrer.
A ditadura da felicidade e o narcisismo contemporâneo
A fuga da dor gera um efeito colateral importante: o isolamento narcísico. Han descreve esse fenômeno como “o inferno do igual”, um mundo onde só nos relacionamos com aquilo que nos confirma e não nos desafia. E o algoritmo tem potencializado muito isso. É fácil viver em uma "bolha digital", os efeitos disso podem ser desde uma existência alienada a nicho e práticas específicas de cultura, até mesmo descolamento da realidade.

O Outro desaparece. E quando aparece e mostra sua negatividade, ele deve desaparecer. E com ele, desaparece o vínculo verdadeiro. restando somente mais do mesmo, mais de si.
O Outro é evitado porque pode ferir, frustrar, discordar. Em seu lugar, buscamos espelhos: pessoas, discursos e conteúdos que reafirmem nossas crenças e sensações. Isso produz uma felicidade rasa, frágil, defensiva.
Zygmunt Bauman já alertava sobre isso em uma modernidade líquida, os laços se tornam frágeis porque exigem tolerância à frustração, algo que a sociedade paliativa não suporta.
A analgesia digital: redes sociais como anestesia emocional
As redes sociais desempenham um papel central nesse processo. Elas funcionam como analgésicos psíquicos: aliviam momentaneamente o vazio, mas não o curam. Elas obedecem a lógica do consumo, e o consumo requer identificação e não tolerância. A redes sociais são espelho psíquicos de nossos desejos, até medos, mas nunca uma janela para ver o outro em sua alteridade.

Curtidas substituem reconhecimento. Scroll de feed infinito substitui elaboração. Exposição substitui vínculo. A pessoa quando quer socializar não busca mais o outro, ela se expõe na rede para ter curtidas como reconhecimento. É uma forma de socializar atual, mas tem gerado consequências emocionais e psicológicas.
Han critica essa dinâmica ao afirmar que a comunicação digital elimina a negatividade do encontro. Não há silêncio, espera ou risco. Apenas estímulo constante. O sofrimento, quando aparece, precisa ser rapidamente convertido em conteúdo ou superação performática.
Essa estética do curtir impede a travessia da dor. E sem travessia, não há amadurecimento.
Dor como vínculo: o que nos forma e nos conecta
Contrariando a lógica paliativa, diversos pensadores apontam que a dor não é apenas inevitável, ela é fundamental.

Viktor Frankl, por exemplo. Ele é sobrevivente de campos de concentração (isso mesmo, no plural). Após essas experiências ele afirmava que o ser humano pode suportar quase qualquer sofrimento se encontrar sentido nele. Para Frankl, a dor não destrói por si só; o que destrói é a ausência de significado.
Nietzsche, antes de Frankl, foi ainda mais longe ao criticar o ideal de conforto absoluto. Ao ironizar a “felicidade das formigas”, ele denuncia uma vida sem risco, sem dor e sem grandeza. Para ele, o sofrimento pode ser força formadora, desde que atravessado, não evitado.
Aqui, a dor deixa de ser inimiga e passa a ser ponte, entre o sujeito e sua própria verdade, entre o Eu e o Outro.
Kintsugi: a beleza das cicatrizes
A arte japonesa do Kintsugi oferece uma metáfora poderosa para a clínica e para a vida. Peças quebradas são restauradas com ouro, tornando as fissuras visíveis e belas. O valor do objeto aumenta justamente porque ele foi quebrado.

Essa imagem contrasta radicalmente com a sociedade paliativa, que busca esconder qualquer rachadura. No Kintsugi, a cicatriz não é vergonha, é história é arte, é tradição.
Clinicamente, isso significa reconhecer que nossas dores fazem parte de quem somos. Elas não precisam ser apagadas, mas integradas.
Saúde mental e amadurecimento psíquico

A psicoterapia, nesse contexto, surge como um espaço de resistência, de encontro com o outro. Um lugar onde a dor pode ser nomeada, escutada e simbolizada, sem pressa de eliminá-la.
Amadurecer psicologicamente não é evitar o sofrimento, mas desenvolver recursos para atravessá-lo. É aprender a sustentar a frustração, a ambivalência e o limite.
Em uma sociedade que nos ensina a anestesiar, sentir é um ato profundamente subversivo.
Resgatar a capacidade de sentir
Talvez o maior adoecimento contemporâneo não seja o excesso de dor, mas a incapacidade de senti-la. A algofobia nos empobrece emocionalmente, enfraquece os vínculos e nos aprisiona em uma felicidade artificial.
Resgatar a dor como experiência humana não é romantizá-la, mas devolvê-la ao seu lugar ético e formador.
A psicoterapia pode ajudar a reconstruir essa capacidade perdida: sentir sem colapsar, sofrer sem se destruir, atravessar sem se anestesiar.
Porque uma vida sem dor pode até ser confortável, mas dificilmente será profunda, verdadeira ou viva.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
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Fontes:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1991.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.







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