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A coação à felicidade: Byung-Chul Han, burnout e o esgotamento emocional

Vivemos em uma época paradoxal. Nunca se falou tanto sobre felicidade, bem-estar e saúde mental, e, ao mesmo tempo, nunca houve tantos relatos de exaustão mental, ansiedade e depressão. A promessa de uma vida feliz se transformou, silenciosamente, em uma exigência. Não basta viver: é preciso viver bem, com entusiasmo, positividade e alta performance emocional.


sacola de plástico com uma expressão de sorriso e a palavra smile!
Fonte Unsplash

Esse fenômeno pode ser compreendido como uma tirania da felicidade, uma pressão constante para demonstrar satisfação, otimismo e equilíbrio, mesmo quando a experiência interna diz o contrário. Não se trata mais de um desejo legítimo de bem-estar, mas de mostrar esse "bem-estar", uma norma social que define o que é uma vida aceitável.


A pergunta que se impõe é: o que acontece com o sofrimento quando a felicidade se torna obrigatória?


Byung-Chul Han e a coação à felicidade e o imperativo do “sim”


O filósofo Byung-Chul Han nomeia esse fenômeno como coação à felicidade. Em suas obras, especialmente em Sociedade do Cansaço e Sociedade Paliativa, Han descreve uma cultura marcada pelo imperativo do “sim”. Sim ao desempenho, sim à produtividade, sim ao otimismo, sim à superação constante etc.


menina com maquiagem borrada sorrindo
Fonte Unsplash

Diferente das sociedades disciplinares do passado, que funcionavam a partir da proibição e da repressão, a sociedade contemporânea opera pela sedução. Não somos mais obrigados a produzir, somos convidados, incentivados e motivados a fazê-lo. A positividade se torna uma forma sofisticada de controle.


Nesse contexto, a dor, a tristeza e o desânimo deixam de ser compreendidos como experiências humanas legítimas e passam a ser vistas como falhas pessoais. O sofrimento precisa ser rapidamente neutralizado, medicalizado ou “resignificado” de maneira produtiva. É isso que Han chama de sociedade paliativa: uma sociedade que não tolera a dor e busca eliminá-la a qualquer custo.

O resultado desse processo não é liberdade, mas esgotamento. O burnout não surge apenas do excesso de trabalho, mas da impossibilidade de dizer “não”, de falhar, de parar e de sofrer.


Foucault e o governo da subjetividade: o sujeito como empresa


silhueta humana atrás de uma parede de vidro
Fonte Unsplash

Antes de Han, Michel Foucault nos ofereceu uma chave fundamental para aprofundar essa análise. Em seus estudos sobre o neoliberalismo, ele mostra como o poder contemporâneo não atua apenas de fora para dentro, mas internaliza-se na subjetividade. Tornamo-nos gestores de nós mesmos.


Na lógica neoliberal, o indivíduo é convocado a se pensar como uma empresa: deve investir em si, otimizar suas emoções, maximizar sua performance e monitorar constantemente seus resultados, inclusive emocionais. A felicidade, nesse cenário, deixa de ser uma experiência e se transforma em meta, indicador de sucesso, capital simbólico.


Passamos a vigiar nosso próprio bem-estar:

  • “ Será que estou feliz o suficiente?”

  • “Será que estou aproveitando a vida como deveria?”,

  • “Por que não me sinto realizado, se teoricamente tenho tudo para estar?”


Esse auto-monitoramento permanente produz culpa e inadequação. Se o sofrimento aparece, ele é interpretado como incompetência subjetiva. O sujeito não se sente explorado, sente-se insuficiente.


Happycracia e o silenciamento do sofrimento


A socióloga Eva Illouz chama esse fenômeno de happycracy: um regime cultural que transforma a felicidade em dever moral e em critério de valor pessoal. Nesse regime, emoções “negativas” são deslegitimadas, e a tristeza passa a ser tratada como algo a ser corrigido, não escutado.


bebê chorando na praia com chapéu de aniversário em frente a um bolo
Fonte Unsplash

Do ponto de vista da psicanálise e da psicologia crítica, esse é um ponto central. O sofrimento não é um erro do sistema psíquico, ele é parte constitutiva da experiência humana. Freud já afirmava, em O mal-estar na civilização, que viver implica conflito, perda e frustração. Prometer felicidade plena é criar uma expectativa impossível de sustentar.


Quando a tristeza não encontra espaço simbólico, ela não desaparece, ela retorna sob a forma de sintomas: ansiedade difusa, apatia, somatizações, crises de pânico, depressão. A clínica contemporânea está repleta de sujeitos que não se permitem sofrer e, por isso mesmo, adoecem.


Validar a dor não significa glorificá-la, mas reconhecer sua função. A dor sinaliza limites, aponta perdas, convoca transformações. Uma vida sem sofrimento não é uma vida saudável, é uma vida anestesiada.


Resistir à tirania da felicidade: da vida otimizada à vida com sentido


Diante desse cenário, resistir à coação à felicidade não é um gesto individual heroico, mas um movimento ético e subjetivo. Trata-se de deslocar a pergunta: “como ser mais feliz?”, para: “como viver de forma mais verdadeira?”

mão masculina mostrando o dedo do meio
Fonte Unsplash

Algumas práticas possíveis são:

  • Autorizar-se a sentir. Tristeza, cansaço e ambivalência não são sinais de fracasso. São respostas humanas a contextos reais. Dar nome ao que se sente já é um ato de resistência.

  • Desconfiar da positividade excessiva. Nem tudo precisa ser aprendido, ressignificado ou transformado em desempenho. Algumas experiências pedem luto, pausa e silêncio e simplesmente presença.

  • Reduzir a produtividade emocional. Você não precisa estar bem o tempo todo, nem provar isso nas redes sociais ou no trabalho. Emoções não são métricas.

  • Valorizar vínculos e não performances. Relações profundas não se constroem a partir de versões otimizadas de si, mas da possibilidade de mostrar fragilidade.

  • Buscar sentido, não felicidade permanente. Sentido envolve compromisso, limites e atravessamentos. Ele não elimina a dor, mas a torna ela habitável.


O direito de não estar bem

Talvez uma das tarefas mais urgentes da saúde mental hoje seja restituir o direito de não estar bem. Em um mundo que exige entusiasmo constante, permitir-se sentir é um gesto profundamente subversivo.

A felicidade, quando imposta, deixa de libertar e passa a oprimir. Recuperar a dignidade do sofrimento é recuperar a possibilidade de uma vida mais honesta, mais encarnada e, paradoxalmente, mais viva.

Não se trata de escolher entre felicidade ou tristeza, mas de reintegrar a complexidade da experiência humana, onde habitam felicidades e tristezas, sem anestesia, sem idealizações e sem culpa.

Porque uma vida com sentido não é, necessariamente, uma vida feliz o tempo todo. Mas é uma vida que pode ser sustentada.





Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes

FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.

ILLOUZ, Eva; CABANAS, Edgar. Happycracia: como a ciência e a indústria da felicidade controlam nossas vidas. Tradução de Gabriel Bogossian. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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