A coação à felicidade: Byung-Chul Han, burnout e o esgotamento emocional
- Herson Alex

- 18 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Vivemos em uma época paradoxal. Nunca se falou tanto sobre felicidade, bem-estar e saúde mental, e, ao mesmo tempo, nunca houve tantos relatos de exaustão mental, ansiedade e depressão. A promessa de uma vida feliz se transformou, silenciosamente, em uma exigência. Não basta viver: é preciso viver bem, com entusiasmo, positividade e alta performance emocional.

Esse fenômeno pode ser compreendido como uma tirania da felicidade, uma pressão constante para demonstrar satisfação, otimismo e equilíbrio, mesmo quando a experiência interna diz o contrário. Não se trata mais de um desejo legítimo de bem-estar, mas de mostrar esse "bem-estar", uma norma social que define o que é uma vida aceitável.
A pergunta que se impõe é: o que acontece com o sofrimento quando a felicidade se torna obrigatória?
Byung-Chul Han e a coação à felicidade e o imperativo do “sim”
O filósofo Byung-Chul Han nomeia esse fenômeno como coação à felicidade. Em suas obras, especialmente em Sociedade do Cansaço e Sociedade Paliativa, Han descreve uma cultura marcada pelo imperativo do “sim”. Sim ao desempenho, sim à produtividade, sim ao otimismo, sim à superação constante etc.

Diferente das sociedades disciplinares do passado, que funcionavam a partir da proibição e da repressão, a sociedade contemporânea opera pela sedução. Não somos mais obrigados a produzir, somos convidados, incentivados e motivados a fazê-lo. A positividade se torna uma forma sofisticada de controle.
Nesse contexto, a dor, a tristeza e o desânimo deixam de ser compreendidos como experiências humanas legítimas e passam a ser vistas como falhas pessoais. O sofrimento precisa ser rapidamente neutralizado, medicalizado ou “resignificado” de maneira produtiva. É isso que Han chama de sociedade paliativa: uma sociedade que não tolera a dor e busca eliminá-la a qualquer custo.
O resultado desse processo não é liberdade, mas esgotamento. O burnout não surge apenas do excesso de trabalho, mas da impossibilidade de dizer “não”, de falhar, de parar e de sofrer.
Foucault e o governo da subjetividade: o sujeito como empresa

Antes de Han, Michel Foucault nos ofereceu uma chave fundamental para aprofundar essa análise. Em seus estudos sobre o neoliberalismo, ele mostra como o poder contemporâneo não atua apenas de fora para dentro, mas internaliza-se na subjetividade. Tornamo-nos gestores de nós mesmos.
Na lógica neoliberal, o indivíduo é convocado a se pensar como uma empresa: deve investir em si, otimizar suas emoções, maximizar sua performance e monitorar constantemente seus resultados, inclusive emocionais. A felicidade, nesse cenário, deixa de ser uma experiência e se transforma em meta, indicador de sucesso, capital simbólico.
Passamos a vigiar nosso próprio bem-estar:
“ Será que estou feliz o suficiente?”
“Será que estou aproveitando a vida como deveria?”,
“Por que não me sinto realizado, se teoricamente tenho tudo para estar?”
Esse auto-monitoramento permanente produz culpa e inadequação. Se o sofrimento aparece, ele é interpretado como incompetência subjetiva. O sujeito não se sente explorado, sente-se insuficiente.
Happycracia e o silenciamento do sofrimento
A socióloga Eva Illouz chama esse fenômeno de happycracy: um regime cultural que transforma a felicidade em dever moral e em critério de valor pessoal. Nesse regime, emoções “negativas” são deslegitimadas, e a tristeza passa a ser tratada como algo a ser corrigido, não escutado.

Do ponto de vista da psicanálise e da psicologia crítica, esse é um ponto central. O sofrimento não é um erro do sistema psíquico, ele é parte constitutiva da experiência humana. Freud já afirmava, em O mal-estar na civilização, que viver implica conflito, perda e frustração. Prometer felicidade plena é criar uma expectativa impossível de sustentar.
Quando a tristeza não encontra espaço simbólico, ela não desaparece, ela retorna sob a forma de sintomas: ansiedade difusa, apatia, somatizações, crises de pânico, depressão. A clínica contemporânea está repleta de sujeitos que não se permitem sofrer e, por isso mesmo, adoecem.
Validar a dor não significa glorificá-la, mas reconhecer sua função. A dor sinaliza limites, aponta perdas, convoca transformações. Uma vida sem sofrimento não é uma vida saudável, é uma vida anestesiada.
Resistir à tirania da felicidade: da vida otimizada à vida com sentido
Diante desse cenário, resistir à coação à felicidade não é um gesto individual heroico, mas um movimento ético e subjetivo. Trata-se de deslocar a pergunta: “como ser mais feliz?”, para: “como viver de forma mais verdadeira?”

Algumas práticas possíveis são:
Autorizar-se a sentir. Tristeza, cansaço e ambivalência não são sinais de fracasso. São respostas humanas a contextos reais. Dar nome ao que se sente já é um ato de resistência.
Desconfiar da positividade excessiva. Nem tudo precisa ser aprendido, ressignificado ou transformado em desempenho. Algumas experiências pedem luto, pausa e silêncio e simplesmente presença.
Reduzir a produtividade emocional. Você não precisa estar bem o tempo todo, nem provar isso nas redes sociais ou no trabalho. Emoções não são métricas.
Valorizar vínculos e não performances. Relações profundas não se constroem a partir de versões otimizadas de si, mas da possibilidade de mostrar fragilidade.
Buscar sentido, não felicidade permanente. Sentido envolve compromisso, limites e atravessamentos. Ele não elimina a dor, mas a torna ela habitável.
O direito de não estar bem
Talvez uma das tarefas mais urgentes da saúde mental hoje seja restituir o direito de não estar bem. Em um mundo que exige entusiasmo constante, permitir-se sentir é um gesto profundamente subversivo.
A felicidade, quando imposta, deixa de libertar e passa a oprimir. Recuperar a dignidade do sofrimento é recuperar a possibilidade de uma vida mais honesta, mais encarnada e, paradoxalmente, mais viva.
Não se trata de escolher entre felicidade ou tristeza, mas de reintegrar a complexidade da experiência humana, onde habitam felicidades e tristezas, sem anestesia, sem idealizações e sem culpa.
Porque uma vida com sentido não é, necessariamente, uma vida feliz o tempo todo. Mas é uma vida que pode ser sustentada.
Herson Alex
Psicólogo Psicanalista
CRP 12/24363
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Fontes
FOUCAULT, Michel. Nascimento da biopolítica: curso dado no Collège de France (1978-1979). Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.
HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2021.
ILLOUZ, Eva; CABANAS, Edgar. Happycracia: como a ciência e a indústria da felicidade controlam nossas vidas. Tradução de Gabriel Bogossian. São Paulo: Ubu Editora, 2022.







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