Medicalização da Saúde Mental
- Herson Alex

- 19 de abr. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 8 de dez. de 2025

A “falta de tempo” e a “velocidade da vida” têm feito muitas pessoas buscarem meios para lidarem com o sofrimento de um modo que seja o mais “eficiente” possível. Levando em conta, para isso, o tempo e o custo do tratamento, cuja eficiência é medida através da eliminação do sintoma, do mesmo modo como é feito com as questões biológicas, ou seja, físicas do corpo (o pleonasmo é proposital).
Para que isso seja possível é necessário que os problemas mentais sejam “aproximados” aos problemas cerebrais, para que os sintomas possam ser tratados como se fossem fisicamente localizáveis no corpo do paciente.
Neste cenário, a medicalização pode ser considerada como um projeto que envolve uma forte e estreita aliança entre as distintas conquistas das áreas da biologia: a fisiologia, a genética e a neurociência, que auxiliam na promoção do pressuposto teórico conhecido como cientificismo, ou seja, a crença de que as ciências naturais, por si só, podem fornecer a orientação ética necessária para todas as questões humanas.
O discurso é tão forte que muitas pessoas, mesmo não conhecendo o procedimento científico, se apropriam dele para rechaçar práticas que são taxadas como pseudociências por se preocuparem mais com o sujeito do que com os números, mais com o humano do que com o sintoma.
Por outro lado, é em meio a esse discurso que determinadas práticas psicoterapêuticas ganham destaque por prometerem abordagens mais objetivas, centradas em naturalizar o sujeito.
A medicalização, através da psiquiatria, não implica em uma renúncia às abordagens psicoterapêuticas, pelo contrário, os tratamentos medicamentosos associados à psicoterapia têm melhores resultados do que a simples medicalização.
Porém, as abordagens psicoterapêuticas para se “destacarem” devem se atentar ao discurso cientificista e, necessariamente, precisam se adequar ao padrão metodológico dominante que é o da medicina. Para ela, a validade de um tratamento só é possível se o método puder ser observado e descrito objetivamente, de modo que possa ser replicado e testado empiricamente através de modelos quantitativos/estatísticos etc.
Com isso, pouco importa o tipo da abordagem teórica ou da abordagem terapêutica, pois a sua eficácia nos tratamentos deve ser avaliada com base em critérios puramente objetivos. O que evidentemente favorece aquelas intervenções cuja atuação é direcionada para a redução e para o controle dos sintomas.
Esse pressuposto tende a invalidar, direta ou indiretamente, as demais abordagens psicoterapêuticas que não estão centradas no sintoma e, por conta disso, passam a ser consideradas pseudocientíficas ou que, no melhor dos casos, são rechaçadas por não utilizarem de técnicas comprovadas cientificamente.
Contudo, o que falta debater é que a medicalização e o cientificismo fazem parte de uma ideologia e não se assumem como tal. O problema não é serem ideológicos, pois isso não é necessariamente ruim, afinal a ideologia pode ser uma ferramenta utilizada para a formação de valores sociais de uma comunidade, mas também pode ser usada para a legitimação de interesses de um grupo em detrimento dos interesses de outros, ou ainda, como naturalização de interesses etc.
O fato de a medicalização ser uma ideologia é problematizado, pois ela não se assume como tal, tentando se estabeleces como uma necessidade baseada na objetividade dos fatos, supostamente superior às discussões sobre o seu papel e seus objetivos ideológicos.
Fato é que a medicalização e todo o cientificismo nas práticas psicoterapêuticas, que se pautam estritamente pela objetividade científica, buscam melhorar a saúde e a qualidade de vida dos pacientes. No entanto, ignora que “vida” e “saúde” são conceitos que não podem ser estabelecidos cientificamente e, portanto, não são conceitos científicos, mas, sim, éticos e políticos. E por mais que exista a necessária ciência política, a política em si não é, nem de longe, científica.
Neste sentido, a psicanálise, na sua atuação clínica, busca se inscrever nessa dimensão ética, do contato com o sujeito através da escuta. Assim como se inscreve na dimensão política, ao não se filiar aos saberes que têm a pretensão de se tornarem controladores da “alma”.
Dos sujeitos que se filiam acriticamente com tanta força e vigor às abordagens pautadas estritamente pelo modelo científico, pode-se dizer que uma possibilidade bastante plausível é que eles não desconhecem o caráter ideológico do cientificismo e da medicalização, mas possuem o desejo de estar em meio a um projeto político que tenciona retirar de cena a complexidade humana presente no movimento do sujeito no mundo, e, com isso, reduzir o tratamento a uma simples técnica, sem preocupações com as causas indiretas por trás dos sintomas, tampouco com a direção do tratamento.
Isso tende a gerar uma “eficácia” cega que não cura, mas desloca o sintoma de um lado para outro. E a resposta para esse “novo” sintoma é mais técnica, mais medicamento. Desse modo, o sujeito do sintoma é colocado em uma espécie de “linha de montagem”, o que torna o profissional da saúde mental um “mecânico” da fórmula 1 da mente em meio a uma corrida, cujo trabalho é fazer com que o sujeito do sintoma volte a correr o mais rápido possível. E caso o sintoma volte, o sujeito faz mais uma breve parada e logo é colocado novamente em circulação, pouco importando se o resultado foi a cura ou o deslocamento do sintoma, pois o que importa não é isso, mas a sensação de eficiência.
O que o profissional da saúde mental que abraça essa ideologia não percebe de imediato é que reduzindo o sujeito ao sintoma, e a mitigação do sintoma à “técnica”, ele mesmo reduz sua atuação a uma técnica que, do ponto de vista da “eficiência” mencionada acima, não precisa necessariamente de um psicólogo para sua aplicação.
Referências
CALAZANS, Roberto; LUSTOZA, Rosane Zétola. A medicalização do psíquico: os conceitos de vida e saúde. Arquivos brasileiros de psicologia, v. 60, n. 1, p. 124-131, 2008.
FERRAZZA, Daniele de Andrade; ROCHA, Luís Carlos da; LUZIO, Cristina Amélia. Medicalização em um serviço público de saúde mental: um estudo sobre a prescrição de psicofármacos. Gerais: Revista Interinstitucional de Psicologia, p. 255-65, 2013.
FREY, Benício Noronha; MABILDE, Luiz Carlos; EIZIRIK, Cláudio Laks. A integração da psicofarmacoterapia e psicoterapia de orientação analítica: uma revisão crítica. Brazilian Journal of Psychiatry, v. 26, p. 118-123, 2004.
SILVA, Jerto Cardoso da; HERZOG, Lísia Mânica. Psicofármacos e psicoterapia com idosos. Psicologia & Sociedade, v. 27, p. 438-448, 2015.
SILVA, Jerto Cardoso; PIANO, Giovani; HUNSCHE, Letícia Beatriz. Medicalização e psicoterapia: A relação entre o uso de psicofármacos e o processo de psicoterapia na adolescência. Revista NUPEM, v. 5, n. 9, p. 151-162, 2013.
SILVA, Jerto Cardoso; SCHÄFER, Caroline; BONFIGLIO, Mariane Silveira. A medicalização da infância e o processo psicoterápico: la relación entre la medicalización y el proceso psicoterapéutico. Barbaroi, n. 39, p. 70-86, 2013.
ZANELLA, Michele et al. Medicalização e saúde mental: Estratégias alternativas. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, v. 15, p. 53-62, 2016.







Ótima crítica! É fundamental buscar alternativas terapêuticas que nos acolham em nossa totalidade, considerando nossa complexidade humana, e não apenas os sintomas que manifestamos.