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A Clínica do Idêntico: Reflexões sobre A Expulsão do Outro, de Byung-Chul Han

“O tempo em que havia o outro já passou.” — Byung-Chul Han
Byung-Chul Han

Essa frase, que abre A Expulsão do Outro, não é apenas um diagnóstico cultural; ela é quase uma constatação clínica. Ao longo dos atendimentos, ela ecoa nas queixas de solidão, esgotamento, sensação de vazio e dificuldade profunda de sustentar vínculos.

Vivemos em um tempo paradoxal: hiperconectados, comunicantes, expostos e, ao mesmo tempo, cada vez mais isolados em nós mesmos.


Byung-Chul Han propõe que a sociedade contemporânea, regida pela positividade excessiva, pela transparência e pelo desempenho, eliminou o Outro, entendido como aquilo que é estranho, resistente, negativo e, portanto, transformador. O resultado é o que ele chama de terror do idêntico: um mundo povoado por reflexos de nós mesmos, onde a alteridade é vivida como ameaça e não como condição de existência.


O terror do idêntico e a positividade sem frestas


Para Han, a lógica dominante não é mais a da repressão, mas a da positividade. Não se diz “não”; incentiva-se, estimula-se, otimiza-se. As redes sociais são o dispositivo exemplar desse funcionamento: algoritmos que entregam mais do mesmo, opiniões semelhantes, corpos desejáveis padronizados, afetos rápidos e consumíveis.


Byung-Chul Han

Nesse cenário, o Outro, aquele que frustra, que demora, que contradiz é progressivamente eliminado. Não há espaço para o dissenso, para o silêncio, para o mal-estar. Tudo precisa ser comunicável, curtível, compartilhável. A hipercomunicação, paradoxalmente, não produz encontro, mas eco.


O sujeito já não se confronta com o diferente, mas circula em câmaras de ressonância onde encontra apenas confirmações de si. O resultado não é harmonia, mas narcisismo estrutural: um eu inflado, porém frágil, que depende constantemente de validação externa.


A clínica do narcisismo e do vazio


Na clínica psicológica, essa expulsão da alteridade aparece de formas sutis, mas persistentes. Pacientes relatam dificuldade em sustentar conflitos nas relações, intolerância à frustração, angústia quando o outro não responde como esperado. Há uma busca incessante por reconhecimento e, ao mesmo tempo, um medo profundo do encontro real.


Byung-Chul Han

A psicanálise sempre apontou que o sujeito se constitui na relação com o Outro. Freud já demonstrava que o desejo não nasce do eu isolado, mas da falta, da alteridade, daquilo que escapa ao controle. Lacan radicaliza essa ideia ao afirmar que o sujeito é estruturado pelo Outro simbólico a linguagem, a cultura, a norma.


Quando esse Outro é expulso, o que resta não é liberdade plena, mas um sujeito fechado em si mesmo, condenado a girar em torno do próprio gozo. O sofrimento que emerge daí não é o do conflito clássico, mas o da exaustão: depressão, burnout, sensação de inutilidade, perda de sentido.


Não é raro ouvir: “Tenho tudo, mas não sinto nada.” Ou ainda: “Estou cansado de mim mesmo.”


Heidegger e a vida inautêntica


A crítica de Han dialoga diretamente com Martin Heidegger, sobre quem ele escreveu sua tese de doutorado. Heidegger descreveu a vida inautêntica como aquela vivida no domínio do das Man, o “se”, o impessoal, o modo como “todos vivem”. Nessa existência, o sujeito se afasta da experiência singular do ser e passa a repetir padrões, expectativas e discursos prontos.

Martin Heidegger

A sociedade da positividade radicaliza esse afastamento. Ao eliminar o negativo, a dor, o limite, a alteridade. Elimina também a possibilidade de uma vida autêntica. O sujeito não se confronta com sua finitude nem com o outro; ele apenas performa versões de si mesmo.


Do ponto de vista clínico, isso produz um mal-estar específico: não o da culpa, mas o da vacuidade. Uma vida cheia de atividades, mas esvaziada de sentido.


Bauman e a fragilidade dos laços


Zygmunt Bauman ajuda a compreender como essa expulsão do outro se articula socialmente. Na modernidade líquida, os vínculos tornam-se frágeis, descartáveis, reversíveis. Relacionar-se passa a ser arriscado, pois o outro pode exigir, frustrar, ferir.

Zygmunt Bauman

É mais seguro manter conexões leves, sem profundidade, facilmente interrompíveis. Mas o preço dessa segurança é alto: sem alteridade, não há transformação; sem vínculo real, não há sustentação psíquica.


Na clínica, isso aparece como dificuldade de compromisso, medo de intimidade e uma solidão que não se resolve com mais contatos, mais matches ou mais seguidores.


O sofrimento que não encontra o outro


Ao expulsar o outro, expulsamos também a possibilidade de elaboração do sofrimento. A dor precisa de um endereço, de uma escuta, de uma alteridade que a acolha. Quando tudo precisa ser positivo, performático e produtivo, o sofrimento se torna um erro a ser corrigido ou um fracasso pessoal.


Han aponta que a depressão é, em parte, o sintoma de um sujeito que não pode mais se apoiar no outro, porque o outro foi eliminado. O sujeito se torna ao mesmo tempo explorador e explorado de si mesmo.


Resgatar o outro como gesto clínico e político em a expulsão do Outro, de Byung-Chul Han


Resgatar a alteridade não é um exercício teórico; é um gesto clínico, ético e político. Significa reaprender a sustentar o conflito, a diferença, o tempo do outro. Significa aceitar que o encontro verdadeiro envolve risco, frustração e transformação.


Byung-Chul Han

Na psicoterapia, isso se traduz em criar um espaço onde o outro não é espelho, mas presença. Onde o silêncio pode existir. Onde a dor não precisa ser otimizada.


Talvez o caminho para sair do esgotamento contemporâneo não seja mais performance, mas mais relação. Não mais positividade, mas mais conhecimento sobre si.


Se você se reconhece nesse diagnóstico de Han, no cansaço, no vazio, na dificuldade de se encontrar com o outro, talvez valha a pena pensar em um processo terapêutico que não busque respostas rápidas, mas espaço para escuta e transformação.


Continue acompanhando o blog para mais reflexões entre psicologia clínica e filosofia contemporânea, ou entre em contato para saber como a psicoterapia pode ajudar a reconstruir vínculos mais vivos e sustentáveis.




Herson Alex

Psicólogo - Escritor

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.




Fontes

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução (Zur Einführung des Narzißmus). In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 14.

FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie). In: FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: Edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. 7.

HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro: sociedade, percepção e comunicação hoje. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2022.

LACAN, Jacques. Escritos (Écrits). Tradução de Vera Ribeiro et al. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 3: As psicoses (Le Séminaire, livre III: Les psychoses). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo (Sein und Zeit). Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2015.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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