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Espiritualidade e Saúde Mental: o que Durkheim, Freud e a psicologia contemporânea nos ensinam

A espiritualidade tem ganhado espaço nas discussões sobre saúde mental, não apenas em contextos religiosos, mas como parte fundamental da experiência humana. Para muitas pessoas, ela funciona como um eixo que sustenta, acolhe e dá direção em momentos de crise. A psicologia reconhece essa dimensão como significativa no fortalecimento emocional, e pensadores como Émile Durkheim e Sigmund Freud já apontavam, cada um à sua maneira, para a relação entre espiritualidade e equilíbrio psíquico.


Mão estendida em direção ao céu


Espiritualidade como rede de apoio: a visão de Durkheim


David Émile Durkheim
David Émile Durkheim (1858-1917)

Em sua obra O Suicídio, Durkheim investigou como a vida coletiva, os vínculos sociais e a presença de crenças compartilhadas influenciam diretamente o bem-estar psicológico. Para ele, a espiritualidade e a religião têm um papel essencial na integração social: conectam as pessoas, geram pertencimento e oferecem um senso de direção.

Durkheim observou que indivíduos inseridos em grupos estruturados espiritualmente, religiosos ou não, tendem a apresentar menor risco de suicídio. Não pelo conteúdo da crença, mas pela função social que ela exerce ao unir pessoas.

A espiritualidade, portanto, funciona como um tecido comunitário que acolhe, orienta e dá lugar ao sujeito em um coletivo. E isso, por si só, é profundamente protetivo para a saúde mental.



A espiritualidade como resposta à angústia humana: a visão de Freud


Sigmund Freud
Sigmund Freud (1856-1939)

Em O Futuro de uma Ilusão, Freud analisa a espiritualidade como uma elaboração psicológica criada para dar conta da vulnerabilidade humana. Segundo ele, o sentimento religioso surge da necessidade de amparo e de respostas para aquilo que escapa ao nosso controle.

Embora a perspectiva freudiana seja crítica, ela não invalida o impacto emocional da espiritualidade. Pelo contrário: Freud nos ajuda a compreender como a busca por algo maior, seja uma crença, um valor ou um símbolo, pode oferecer conforto diante da angústia e da incerteza da vida.

Assim, para Freud, a espiritualidade não é tanto uma defesa racional, mas uma expressão emocional profunda, que ajuda o sujeito a lidar com fragilidades humanas universais.



O que a psicologia contemporânea confirma


Hoje, inúmeros estudos (veja as referências) mostram que espiritualidade, quando vivida de forma saudável, está associada a:


  • Redução do estresse crônico

  • Aumento da sensação de propósito de vida

  • Maior resiliência emocional

  • Redução de sintomas depressivos

  • Melhor enfrentamento de perdas e crises

  • Maior sensação de pertencimento


A espiritualidade fortalece o que chamamos de regulação emocional profunda: a capacidade de lidar com emoções difíceis sem a sensação de se desconectar de si mesmo.



Espiritualidade, saúde mental, propósito e sentido de vida


Mulher no escuro com mão estendida em direção à fonte de luz

Independentemente da tradição religiosa, a espiritualidade frequentemente aparece na prática clínica como uma ferramenta espontânea que os pacientes utilizam para sustentar momentos difíceis.

Quando falamos de espiritualidade na psicologia, falamos sobre:


  • o que dá sentido à vida,

  • o que organiza a experiência interna,

  • o que ajuda o sujeito a se conectar com algo maior que seus próprios conflitos.


Essa dimensão pode ser encontrada em práticas religiosas, filosofia, meditação, natureza, arte ou até no cuidado com outras pessoas.




Como cultivar a espiritualidade de forma saudável


Não existe um modelo ideal, mas há alguns caminhos possíveis:


  • reservar momentos de silêncio ou contemplação;

  • buscar práticas que ajudem a reconectar com o corpo ou com valores pessoais;

  • participar de comunidades ou grupos que compartilhem propósitos;

  • refletir sobre o que realmente sustenta sua vida emocional.


O importante é que esse processo seja autêntico, e não uma obrigação.



Para pensar

Mulher com os braços estendidos em direção ao céu

Durkheim, Freud e áreas da psicologia, podem ter suas diferenças, mas concordam no ponto em que a espiritualidade é uma força presente, estruturante e influente na saúde mental humana.

Na sociedade atual, com tantas demandas e incertezas, ela continua funcionando como um espaço interno de sentido, acolhimento e reorganização emocional.

Byung-Chul Han, em seu livro "O Desaparecimento dos Rituais", argumenta que a crise atual não é a ausência de religião, mas a perda da própria capacidade simbólica e ritualística da sociedade moderna, que sustenta o senso de comunidade e orientação temporal.

A ênfase de Han recai sobre a estrutura e o significado que os rituais, em sua essência não necessariamente religiosa, fornecem à existência humana, e a perda desse elemento é, na visão de Han, uma patologia da sociedade do desempenho.

A pergunta que fica é: o que, hoje, sustenta e dá sentido à sua experiência?



Fontes:

DURKHEIM, E. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

FREUD, S. (1927). O Futuro de uma Ilusão. In: FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 21. Rio de Janeiro: Imago, 1990.

KOENIG, H. G. Religiosidade e saúde mental: uma revisão. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 28, n. 1, p. 115, 2012.

MOREIRA-ALMEIDA, A.; KOENIG, H. G.; LUCHETTI, G. D. P. H. S. S. J. A. O papel da religiosidade e da espiritualidade na saúde mental: uma revisão da literatura e perspectivas futuras. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 37, n. 4, p. 324-332, dez. 2015.

PULLEN, V. M. et al. The relationship between purpose in life and depression and anxiety: a meta-analysis. Journal of Clinical Psychology, v. 79, n. 10, p. 2384-2401, ago. 2023.

RIBEIRO, C. A. de O.; SILVA, M. J. P. da. Espiritualidade no cuidado em saúde: revisão integrativa. Acta Paulista de Enfermagem, São Paulo, v. 34, eAPh0043, 2021.

ROSEN, W. J.; KOENIG, H. G.; MEADOR, K. G. Religiosity and spirituality in the prevention and management of depression and anxiety: a systematic review. BJPsych Open, v. 9, n. 5, p. E169, set. 2023.

VAN DER ZEE, K. I. et al. Religiosity/Spirituality and Mental Health in Older Adults: A Systematic Review and Meta-Analysis. Frontiers in Medicine, Lausanne, v. 9, 877213, 12 maio 2022.



Herson Alex

Psicólogo Psicanalista

CRP 12/24363


Conheça mais sobre o meu trabalho clicando aqui.


 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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