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Desejo feminino na psicanálise: o que você deseja desejar?

"TIVE UM SONHO NÍTIDO inexplicável: sonhei que brincava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu." — Clarice Lispector, Um sopro de vida


Você provavelmente já ouviu essa pergunta quando criança: "O que você quer ser quando crescer?" Consegue se lembrar se sonhava nessa época? Quais eram os seus sonhos?


Há um tempo da vida em que a imaginação é nosso guia. Desejamos antes mesmo de saber quem somos, antes de compreender limites, expectativas ou exigências. Sonhar não parecia um problema, mas sim um direito natural de existir.


Uma frase lida em Um sopro de vida, de Clarice Lispector, me fez pensar justamente sobre esse momento do nosso desenvolvimento: quando ainda estamos tentando nos reconhecer, quando o desejo não precisa se justificar e o reflexo que nos olha ainda não está totalmente moldado pelo olhar do outro.


Mulher segurando uma planta dente de leão
Fonte Pexels

Mas, ao longo da vida, algo acontece com o desejo.


Afinal, o que é desejo feminino para a psicanálise?


Antes de tudo, é importante diferenciar desejo de vontade, necessidade ou simples querer. Embora no cotidiano essas palavras apareçam como sinônimos, na psicanálise elas não ocupam o mesmo lugar.


A necessidade diz respeito a algo que pode ser satisfeito, como comer, dormir, descansar. A vontade costuma estar ligada a escolhas mais conscientes, enquanto o querer pode se relacionar a preferências imediatas.


O desejo, por sua vez, escapa a essas categorias. Ele não se apresenta de forma plenamente consciente nem se resolve por meio de uma satisfação direta.


A psicanálise considera o desejo como algo que se sustenta a partir da falta, não como carência a ser preenchida, mas como movimento que nos impulsiona. Nesse sentido, o desejo aponta uma direção para a vida psíquica, ainda que nem sempre saibamos nomeá-lo com clareza.


Mulher fazendo anotações em post-it
Fonte Pexels

Por isso, o desejo não busca uma satisfação plena, tampouco se encerra quando um objeto é alcançado. Podemos dizer que o desejo é processo: algo que insiste, retorna e se transforma, mesmo quando acreditamos já ter encontrado aquilo que procurávamos.


Na psicanálise de Jacques Lacan “o desejo do sujeito é o desejo do Outro”. Com essa afirmação, ele indica que o desejo não se constitui de maneira isolada ou puramente individual. Desejamos a partir do Outro, ou seja, da linguagem que nos atravessa, dos olhares que nos constituem, das expectativas, normas e discursos que nos antecedem.


Assim, reconhecer o próprio desejo requer de nós distinguir aquilo que nos move de forma singular daquilo que nos foi ensinado a desejar; de interrogar até que ponto nossos desejos respondem a ideais externos ou a demandas que não são propriamente nossas.


Quando pensamos em desejo feminino, essa questão se torna ainda mais complexa.


Desde Freud, a psicanálise se depara com a dificuldade de responder à pergunta sobre o que deseja uma mulher. Essa dificuldade não se deve à ausência de formulações teóricas, mas ao fato de que o desejo feminino resiste às tentativas de definição e generalização.


Lacan aprofunda essa discussão ao afirmar que não existe “A Mulher” como categoria totalizante. Isso significa que não há uma forma única de ser mulher ou de desejar. Desse modo, podemos dizer que o feminino, na psicanálise, não se organiza a partir de um todo homogêneo, mas da singularidade de cada experiência.


Nesse sentido, o desejo feminino na psicanálise não se deixa capturar por normas rígidas, expectativas sociais ou ideais pré-estabelecidos, ele é construído de maneira singular, a partir da história de cada sujeito.



Quando o desejo feminino não encontra palavras


Quando olhamos para a experiência feminina, essa questão se torna ainda mais delicada, pois historicamente, o desejo feminino foi reprimido, silenciado ou moldado por discursos sociais que disseram o que uma mulher deveria querer; e, muitas vezes, o que não deveria desejar.


Desenho de uma mulher com um X pintado em vermelho sobre sua boca
Fonte Pexels

Desde cedo, aprendemos a olhar para nós mesmas a partir de expectativas externas, o que impacta diretamente a forma como nos relacionamos com o próprio desejo.


Também penso ser importante destacar que desejo e sexualidade não se reduzem ao corpo ou ao desempenho. Nossos desejos dizem respeito ao encontro com a nossa própria história, com nossos próprios limites, com a memória, a fantasia, o afeto e também com o conflito.


Na experiência feminina, o desejo frequentemente aparece atravessado por culpa, medo ou dúvida, não porque haja algo errado em desejar, mas porque esse desejo foi, por muito tempo, regulado pelo olhar do outro.


Diante disso, a pergunta que se apresenta não é apenas o que desejo, mas de quem é esse desejo que me habita?



Reconhecer o desejo feminino: entre a escuta e o espelho


Na clínica, é frequente encontrar mulheres que dizem não saber o que desejam. Não por ausência de desejo, mas porque, ao longo da vida, aprenderam a se orientar mais pelas expectativas externas do que pela escuta de si. O desejo feminino, nessas situações, aparece difuso, confuso ou silenciado, muitas vezes confundido com obrigação, adaptação ou medo de frustrar o outro.

O processo analítico oferece um espaço de escuta qualificada, no qual o desejo pode, pouco a pouco, ganhar palavras, contorno e sentido. Ao longo da análise, muitas mulheres passam a reconhecer aquilo que as move de forma singular, distinguindo o desejo próprio daquele que foi construído a partir do olhar do Outro.


Esse movimento de autoconhecimento não acontece de forma linear, mas inaugura a possibilidade de escolhas mais alinhadas com a própria história.


Uma mulher sentada segurando um espelho em frente ao seu rosto
Fonte Pexel

Retomando Clarice Lispector, quando ela escreve sobre brincar com o próprio reflexo, mas reconhecer ali “uma outra pessoa que não eu”, toca justamente esse ponto delicado do desejo. Quantas vezes nos olhamos no espelho e encontramos uma imagem moldada por expectativas, papéis e ideais que não nos pertencem inteiramente?


Quando o desejo é sustentado apenas pelo olhar do outro, ele pode se tornar estranho a si mesmo. Passamos a desejar aquilo que parece aceitável, correto ou socialmente desejável, correndo o risco de perder contato com a própria singularidade.


Reconhecer o desejo feminino é, também, um gesto de atravessar esse espelho, não para encontrar uma resposta pronta, mas para sustentar a pergunta sobre quem se é e o que se deseja.


Olhar para o próprio desejo não garante respostas fáceis, mas pode abrir caminhos para escolhas mais alinhadas com nossos valores, com nossa história e com quem, de fato, somos, para além do reflexo que aprendemos a sustentar.



Sobre a autora convidada


Fotografia da autora convidada

Sou Tayana, pós-graduada em Psicanálise Clínica, advogada e em início de atuação como psicanalista.


Meu interesse se volta especialmente às questões que atravessam o feminino e a forma como as mulheres constroem sua relação consigo mesmas.


Neste espaço, passo a colaborar com Alex, contribuindo semanalmente com textos que têm como objetivo oferecer reflexões que convidem à escuta, ao questionamento e cuidado consigo mesma.


Para conhecer mais sobre o meu trabalho, clique aqui.


Fontes:


FREUD, Sigmund. Novas conferências introdutórias sobre a psicanálise. Conferência XXXIII: Feminilidade. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972–1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida: (pulsações). 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

 
 
 

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© Herson Alex Psicólogo
CRP: 12/24363

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