Autoestima Feminina: Por que é tão difícil se sentir suficiente?
- tayanapsicanalista
- 13 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Mídia, moda, carreira, família e relacionamentos. Em todos esses espaços, as mulheres são atravessadas pelo que é esperado, aceitável ou desejável na sociedade.
Mesmo quando começam a questionar e a quebrar padrões, eles não desaparecem; apenas se adaptam ao tempo em que vivemos.
De maneira sutil ou escancarada, o corpo, as escolhas, o desempenho e o valor da mulher estão sob julgamento. Com isso, cria-se uma tensão constante, uma sensação de que é preciso estar sempre se ajustando ao meio.
Esse movimento sustenta uma cultura que transforma a mulher em objeto de consumo, de desejo. E é nesse cenário que a autoestima feminina vai sendo fragilizada, muitas vezes sem que se perceba.
O que é autoestima feminina na perspectiva psicanalítica?

Na psicanálise, a autoestima está ligada à forma como cada pessoa constrói a imagem de si mesma ao longo da vida, especialmente a partir das primeiras relações.
Freud, em Introdução ao Narcisismo (1914-1916), propõe que o amor por si - o narcisismo - é uma etapa fundamental da constituição psíquica. A partir disso é que o sujeito constrói seu valor, sua imagem e sua relação com o mundo. Ao longo do desenvolvimento, parte dele se organiza em torno do chamado ideal do eu, que funciona como referência interna.
A autoestima, nesse sentido, está relacionada a essas figuras do eu real e do eu ideal. Assim, quando aumenta a distância entre quem somos e esse ideal construído, podem aparecer sentimentos de insuficiência, culpa e desvalorização.
A partir da leitura dos textos de Melanie Klein, é possível compreender que a autoestima da mulher também depende da capacidade de reconhecer limites e imperfeições sem se culpar ou autocriticar excessivamente.
Isto é, reconhecer que é possível ser imperfeita (até porque isso é normal), sem que isso diminua o próprio valor, está ligado a uma relação mais integrada e menos punitiva consigo mesma.
Os mecanismos inconscientes e seus efeitos na autoestima da mulher

Muitas vezes, a dificuldade com a autoestima vem do modo inconsciente de se relacionar consigo mesma. Um dos principais mecanismos é a internalização de um ideal rígido, que funciona como uma voz crítica constante: “nunca é suficiente, nunca está bom”.
Outro mecanismo frequente é a repetição de padrões de desvalorização. Por exemplo, mulheres que internalizaram que o reconhecimento acontece de acordo com o desempenho, a aparência ou a aprovação do outro e, por conta disso, tendem a buscar validação externa como forma de sustentar o próprio valor.
Nesse movimento, o próprio desejo se enfraquece, enquanto a autoestima fica dependente do olhar alheio, tornando-se instável e frágil.
Esses mecanismos não ficam restritos ao inconsciente, pois se manifestam na experiência cotidiana de muitas mulheres, por meio de uma insatisfação constante, seja com o próprio corpo, com a produtividade ou com a sensação de nunca fazer o suficiente. Aparece, com frequência, um senso de responsabilidade excessivo, como se tudo dependesse delas, acompanhado de uma sobrecarga mental que poucas vezes encontra espaço para descanso.
Nesse movimento, muitas mulheres passam a se relacionar consigo mesmas como um objeto que precisa ser desejável, validado, aprovado, seja pelo olhar do Outro, seja por padrões sociais internalizados.

Há ainda uma dificuldade em reconhecer o próprio valor: O autorreconhecimento dá lugar à autocrítica e exigência, sem se permitir acolher as falhas ou os limites.
Como fortalecer a autoestima feminina?
Em primeiro lugar, é necessário voltar o olhar para si e se perguntar, com honestidade: O que eu entendo por autoestima? Como costumo me sentir diante de críticas, sejam elas sobre minha aparência, minha inteligência ou minhas habilidades? Houve algum momento marcante na minha trajetória em que passei a duvidar do meu valor ou a sentir que precisava provar que era “boa o suficiente”?
Essas perguntas não exigem respostas imediatas, mas ajudam a reconhecer de onde vêm certas inseguranças e padrões de autocrítica que se repetem ao passar dos anos. Também é importante observar quais hábitos, rotinas ou relações afastam a mulher de si mesma e do que deseja.

Em um segundo momento, o fortalecimento da autoestima pode passar pela construção de espaços que favoreçam o contato consigo mesma. Seguem alguns exemplos:
Se exercitar ou praticar esportes;
Desenvolver novos hobbies;
Estudar algo novo;
Ler livros etc.
Buscar uma escuta qualificada e cultivar atividades que promovam presença podem contribuir para uma relação mais gentil com o próprio corpo, com a própria história e com o próprio desejo.
Um convite à reflexão para as mulheres
Até que ponto delegamos ao Outro o nosso valor, os nossos desejos e as nossas escolhas?
Essas perguntas são um convite para uma pausa e um olhar para dentro. A autoestima não é algo que se conquista de uma vez por todas, mas um processo que se constrói ao longo da nossa vida, atravessado pela história, pelas relações e pelos discursos que nos cercam.

Essa reflexão não se esgota aqui; ela se inicia no instante em que cada uma de nós se permite escutar aquilo que sente e deseja, para além das expectativas externas.
Sobre a autora convidada

Sou Tayana, pós-graduada em Psicanálise Clínica, advogada e em início de atuação como psicanalista.
Meu interesse se volta especialmente às questões que atravessam o feminino e a forma como as mulheres constroem sua relação consigo mesmas.
Neste espaço, passo a colaborar com Alex, contribuindo semanalmente com textos que têm como objetivo oferecer reflexões que convidem à escuta, ao questionamento e cuidado consigo mesma.
Para conhecer mais sobre o meu trabalho, clique aqui.
Fontes
FREUD, S. Introdução ao narcisismo: ensaios de metapiscologia e outros textos (1914-1916). In: FREUD, S. Obras completas de Sigmund Freud. v. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
KLEIN, M. Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). In: KLEIN, Melanie. com uma nova introdução escrita por Hanna Segal; tradução André Cardoso. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
KLEIN, M. Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946–1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.



Comentários